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ARROCHO SISTÊMICO

ARROCHO SISTÊMICO

https://ctb.org.br/noticias/economia/arrocho-do-salario-minimo-pode-agravar-crise-e-encontra-resistencia-no-congresso/

 

De acordo com Jacques Delors, aprender a conhecer (primeiro pilar), aprender a fazer (segundo pilar), aprender a ser (terceiro pilar) e aprender a conviver (quarto pilar) são ingredientes fundamentais para o sucesso da vida em sociedade. Convém, contudo, ressaltar que é difícil aprender um conteúdo acadêmico com um corpo marcado pela fome ou cultivar relações sociais harmônicas com o emocional marcado pelo abandono. É visível a produção de homens invisíveis. Melhor dizendo: a hipocrisia sistêmica, todos os dias, afirma o prolongamento da pobreza e o desfile criminoso da riqueza. A democracia teórica e a ditadura prática sustentam a escravidão continuada que se impõe à realidade brasileira desde priscas eras. A saída desse labirinto estrutural encontra-se justamente no saber popular em poder por ele constituído.

 Jacques Delors

Os aspectos emocional, racional, social e físico conformam tanto a pessoa e suas aprendizagens quanto a economia, a política e a história conformam a sociedade. No sentido de uma educação de qualidade, é indispensável que a integralidade dos sujeitos que aprendem também seja visibilizada. A proposta de Jorge Larrosa é de que as escolas sejam, no lugar de simples produtoras de conhecimento, promotoras de experiência. Para ele, as experiências são meio de formação e transformação do sujeito e do mundo. O papel da educação, neste sentido, não se detém à transmissão de informações, as quais atualmente jorram das fontes midiáticas e estão acessíveis a um clique. Muito mais importa estar presente no presente, nas relações consigo, com o outro, com o mundo. Deixar-se afetar pelos encontros é primordial. Compreender que aprender é sentir e que sentir é dar sentido ao vivido remonta no campo educativo a importância de incorporar as emoções, os sentimentos, a inteligência emocional, o pensamento crítico, a perseverança, a proatividade, a colaboração, a comunicação e a criatividade.

Nunca tivemos tantos casos de indisciplina e falta de empatia entre os jovens e adolescentes. Seria apenas culpa da pandemia e dos anos em que ficaram sem o convívio social? Sinceramente, acredito que não. Para o filósofo e líder indígena Ailton Krenak, sofremos com os efeitos da abstração civilizatória, provocando em nós a ausência do estado coletivo da existência, isto é, da consciência de que fazemos parte de um todo, do respeito pela diversidade, do afeto e da alegria de existir, também, na ludicidade. “O direito coletivo fica muito exposto à violência colonialista que quer devastar tudo”, salienta o autor do livro Ideias para adiar o fim do mundo (2019).

Ailton Krenak

Com a pandemia, esperávamos que a sociedade mudasse para melhor. Mas não. As pessoas parecem não ter aprendido absolutamente nada. O egoísmo segue firme e forte. “Ao mesmo tempo em que grupos sociais vivem situações tão discrepantes, uma parcela da população — afetada pela ignorância, pelo mau-caratismo ou por ambos — se mantém voltada para o próprio umbigo, em um espiral delirante. Nessa camada, que atenta contra a democracia e defende o autoritarismo, as prioridades estão longe do combate a problemas socioeconômicos. Elas se concentram em uma pretensa defesa da vida enquanto preveem mais flexibilizações para acesso a armas e não compreendem medidas contra o desamparo do Estado aos menos favorecidos” — alerta, com pesar, a jornalista Jéssica Eufrásio, em Brasil de transes e vertigens (Correio Braziliense, 11/07/2022).

Jéssica Eufrásio

A boiada passa com seus instrumentos de alienação. O agronegócio – que diz produzir alimentos, mas produz commodities para exportação ou para alimentar o gado, enquanto 19 milhões de brasileiras e brasileiros passam fome – enriquece cada vez mais à custa da segurança alimentar e nutricional da população brasileira, da preservação do meio ambiente, da nossa saúde e da nossa soberania alimentar. “Eu vivo em tempos sombrios. Uma linguagem sem malícia é sinal de estupidez, uma testa sem rugas é sinal de indiferença. Aquele que ainda ri é porque não recebeu a terrível notícia […]” – assim como Bertolt Brecht (1898-1956) disse no poema Aos que virão depois de nós, sentimos o pisar dos problemas machucando a terra do nosso juízo.

O capitalismo moribundo se ocupa, vendo o mundo pegar fogo. Sombra e água fresca só conhecem o mesmo destino: a minoria próspera. A multidão inquieta convive com incêndios diários, invadindo sua morada florestal. A selva de pedras, resultado de inúmeras invasões ao propósito verde, atropela a conservação da biodiversidade, impondo dicotomia absurda entre os trabalhos da cigarra e da formiga. O caminho do meio é melhor que a era dos extremos. A vida não pode ser tão triste assim. Como no romance de Daniel Galera, Até o dia em que o cão morreu (2007), só a instabilidade das paixões que se anunciam põe o trem nos trilhos. Um cotidiano sem riscos emocionais congela o pulsar da existência.

Daniel Galera

Uma boa educação pode elevar o nível da conversa e combater as atividades agressivas. Alegoricamente falando, abusar da “virtude dormitiva” confirma somente o desdém da raposa sobre as uvas não alcançadas. A justa medida está longe de ser a lei do menor esforço. Agentes facilitadores, quando muito, são teclas de atalho. Movimentam também a literatura de autoajuda e o discurso publicitário. Conversa mole para boi dormir. Não à toa, alerta a canção Admirável Gado Novo (1979), entoada por Zé Ramalho: “Vocês que fazem parte dessa massa/ Que passa dos projetos do futuro/ É duro tanto ter que caminhar/ E dar muito mais do que receber/[…]/ Ê, ô, ô, vida de gado/ Povo marcado/ Ê, povo feliz!”. No fundo, a conciliação entre alhos e bugalhos no Brasil só promoveu o inaceitável e o indecoroso.

Zé Ramalho

 

Marcos Fabrício Lopes da Silva*

* Professor autônomo e pesquisador independente. Jornalista, formado pelo UniCEUB. Poeta. Doutor e mestre em Estudos Literários pela UFMG.

 

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