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CONSCIÊNCIA NEGRA

CONSCIÊNCIA NEGRA

Festa da Consciência Negra – Comando Rasta

 

Pode-se dizer que as ideias em torno do que tem sido chamado de “reconhecimento” têm por objetivo a emancipação e a valorização dos sujeitos, a construção da cidadania, o respeito à diferença, com base em critérios de igualdade que visam, ao mesmo tempo, a redução das injustiças de diferentes matizes dentro das sociedades contemporâneas, mas também, a legitimação de determinadas especificidades. Portanto, é um desafio para as sociedades democráticas contemporâneas promover a acomodação das diferenças, em seus diversos significados.

No Brasil, as possibilidades lançadas pela Constituição Federal de 1988, pautada na expansão dos direitos civis, políticos e sociais, permitiram a abertura de novas perspectivas em torno da temática da diversidade cultural, do reconhecimento de minorias ou de grupos historicamente marginalizados. Ela significou um passo importante na difícil tarefa de debelar o racismo fortemente estruturado na sociedade brasileira, através do incentivo a espaços mais abertos para a discussão e execução de políticas públicas. A transformação do racismo em crime inafiançável e imprescritível foi um dispositivo importante de proteção a grupos discriminados, como a população negra.

O combate contra toda e qualquer forma de discriminação está inscrito no cerne das funções do Estado. Dessa forma, o poder público, seja em qual esfera for, não pode se omitir dessa tarefa de promover igualdade. Precisamos desnudar nosso racismo para poder combater de forma adequada. Não dá para continuar pensando que está tudo bem. Não está. O racismo começa na invisibilidade, passa pelo determinismo e desemboca na miséria e na morte.

A marca da escravidão continua viva, se enraizando no silêncio da sociedade brasileira. Ela está no olhar que destrói, na palavra que discrimina, no açoite que mata pela cor da pele e no racismo estrutural, que faz sangrar os lanhos da alma do povo negro. O debate dessa realidade precisa ser fomentado diariamente na política, nas escolas, nas universidades, no mundo do trabalho, no meio artístico, nos veículos de comunicação, nas redes sociais, no ecumenismo, no esporte. Fomos o último país do continente a abolir a escravidão. O povo negro foi largado à própria sorte. Os grilhões de ontem se perpetuam hoje na fome, na miséria, na pobreza, na violência, no desemprego.

 

Como disse a filósofa e feminista estadunidense Angela Davis, não basta não ser racista – é necessário ser antirracista. Mesmo com toda a comoção social provocada pelo bordão “vidas negras importam”, ainda estamos longe de um resultado satisfatório. A população brasileira é composta por 56,2% de pretos e pardos. A maioria é pobre. Temos a segunda maior concentração de renda do mundo. Mais de 70% dos que morrem por assassinato são negros. Entre as mulheres, quase 70%. Os homicídios aumentam. Mais de 60% dos jovens entre 15 e 29 anos que não estudam nem trabalham são negros. A educação é a porta para a cidadania. O Estado se omite desde a assinatura da Lei Áurea. Não à toa, Machado de Assis (1839-1908) fez o seguinte alerta: “a abolição é a aurora da liberdade, esperemos o sol; emancipado o preto, resta emancipar o branco” (Esaú e Jacó, 1904).

O 20 de novembro — Dia da Consciência Negra e de Zumbi dos Palmares — é uma data significativa. Muito se tem falado da desigualdade racial no Brasil, dos preconceitos velados, implícitos e explícitos; do atraso escolar das crianças negras; dos salários dos negros e negras, sempre menores quando comparados aos dos brancos e brancas, mesmo quando se prova que a escolaridade é a mesma ou até maior; do desemprego, da marginalidade e da violência que atingem níveis estatísticos mais altos nas comunidades negras, sobretudo quando se constata que, no Brasil, 64% dos pobres e 69% dos indigentes são negros ou afrodescendentes, quando se constata a quase inexistência de negros nas universidades brasileiras e na pesquisa acadêmica. Esses indicadores apresentam-se como indagações a este Brasil que se diz moreno, que se vê no espelho da democracia racial.

O Quilombo dos Palmares foi a primeira grande ação afirmativa de busca da liberdade e da igualdade racial. É no inconformismo dessa abolição incompleta que nasce a atitude heurística de revirar a historiografia oficial. A construção social e política do Treze de Maio não corresponde à realidade em que nos encontramos. Conforme expressa a consciência ancestral e histórica reivindicada pela escritora e poeta Conceição Evaristo em Vozes-Mulheres: “A voz de minha bisavó/ecoou criança/nos porões do navio./Ecoou lamentos/de uma infância perdida./A voz de minha avó/ecoou obediência/aos brancos-donos de tudo./A voz de minha mãe/ecoou baixinho revolta/no fundo das cozinhas alheias/debaixo das trouxas/roupagens sujas dos brancos/pelo caminho empoeirado/rumo à favela/A minha voz ainda/ecoa versos perplexos/com rimas de sangue/e/fome./A voz de minha filha/recolhe todas as nossas vozes/recolhe em si/as vozes mudas caladas/engasgadas nas gargantas./A voz de minha filha/recolhe em si/a fala e o ato./O ontem – o hoje – o agora./Na voz de minha filha/se fará ouvir a ressonância/O eco da vida-liberdade” (Poemas de recordação e outros movimentos, 2008).

Ilustração representativa do Quilombo dos Palmares

 

O poeta gaúcho Oliveira Silveira (1941-2009), junto com o grupo Palmares, idealizou o 20 de novembro, uma data que respeita verdadeiramente a caminhada do Povo Negro no Brasil. Embora os versos a seguir tenham sido escritos em 13 de maio de 1969 – “Treze de maio traição,/liberdade sem asas/e fome sem pão” –, Oliveira Silveira soube demonstrar os limites do abolicionismo e os méritos do quilombismo para que a dignidade plena seja efetivamente contemplada no país.

 

Marcos Fabrício Lopes da Silva*

* Professor nas Faculdades Promove de Sete Lagoas (2005-2009), Fortium (2013) e JK (2013-2020). Jornalista, formado pelo UniCEUB. Poeta. Doutor e mestre em Estudos Literários pela UFMG.

 

Confira outros artigos de Marcos Fabrício. Acesse o link abaixo:

https://libertasnews.com.br/category/colunas/palavra-livre-marcos-fabricio/

 

Dia da Consciência Negra

https://www.youtube.com/watch?v=1xqvvWo8TXE

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