DEVER DE CASA INCOMPLETO

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DEVER DE CASA INCOMPLETO

DEVER DE CASA INCOMPLETO

 

Empatia está ligada a três outras palavras que também compartilham uma raiz comum: respeito, resposta e responsabilidade. Quando respeito o outro, tenho uma responsabilidade por ele. E disso depende a resposta que vou dar a ele. O filósofo lituano Emmanuel Lévinas (1906-1995) lembra nossa responsabilidade infinita para com o outro justamente porque o reconheço como outro ser humano. Edith Stein (1891-1942) vai mais longe: a empatia nasce de um respeito por qualquer ser capaz das mesmas sensações e emoções que eu. Isso pode incluir plantas e animais. É curioso observar que “respeito” e “responsabilidade” também estão na palavra “resposta”: a resposta que dou ao outro depende da construção mútua de respeito que começa na gentileza. Essa prática pode começar na infância, quando aprendemos a ver o direito do outro como reflexo dos nossos.

Emannuel Lévinas                              Edith Stein

 

Respeito, resposta e responsabilidade também compartilham no meio da palavra, a raiz “spes”, que pode ser colocada próxima, a partir do latim, do conceito de “esperança”. Se você quiser, pode ver algo poético nisso: a empatia está ligada à esperança de poder construir uma relação com o outro. Educação para a cidadania pressupõe respeito às regras do jogo democrático, a começar pela expressão da alteridade. Não basta tomar conhecimento da existência do outro. É preciso respeitar o outro como diferente de mim, sem procurar dissolvê-lo em minha linguagem e acolhê-lo autenticamente com a sua própria perspectiva. Logo, zelar pela diversidade significa saber lidar com as diferenças. Não à toa, o respeito democrático deve representar a espinha dorsal de todo o processo educativo.

 

Para tanto, viver deve ser uma permanente reinvenção de nós mesmos — para não morrermos soterrados na poeira da banalidade, embora pareça que ainda estamos vivos. Apesar dos medos, convém não ser demais fútil nem demais acomodado. Algumas vezes é preciso pegar o touro pelos chifres, mergulhar para depois ver o que acontece: porque a vida não tem de ser sorvida como uma taça que se esvazia, mas como o jarro que se renova a cada gole bebido. Segundo a escritora Lya Luft, em crônica intitulada Para que a existência valha a pena: “Pensar pede audácia, pois refletir é transgredir a ordem do superficial que nos pressiona tanto. Compreender: somos inquilinos de algo bem maior do que o nosso pequeno segredo individual. É o poderoso ciclo da existência. Nele todos os desastres e toda a beleza têm significado como fases de um processo.

Para viver de verdade, pensando e repensando a existência, para que ela valha a pena, é preciso ser amado; e amar; e amar-se. Ter esperança; qualquer esperança. Questionar o que nos é imposto, sem rebeldias insensatas mas sem demasiada sensatez. Saborear o bom, mas aqui e ali enfrentar o ruim. Suportar sem se submeter, aceitar sem se humilhar, entregar-se sem renunciar a si mesmo e à possível dignidade. Sonhar, porque se desistimos disso apaga-se a última claridade e nada mais valerá a pena. Escapar, na liberdade do pensamento, desse espírito de manada que trabalha obstinadamente para nos enquadrar, seja lá no que for. E que o mínimo que a gente faça seja, a cada momento, o melhor que afinal se conseguiu fazer” (Veja, 13/08/2016).

 

O pensamento de Kant (1724-1804) foi o responsável por colocar a dignidade humana como princípio de uma ética válida para todas as pessoas. Que cada indivíduo fosse considerado um fim em si mesmo inspirou gerações e atravessou os séculos 19 e 20 como um imperativo. A ideia da dignidade humana se fortaleceu entre grupos e povos, dando base a relações interpessoais e institucionais. Que seres humanos tenham valor em si mesmos define que ninguém pode ser reduzido a um preço. Ninguém é meio, todos devem ser vistos como fins e, por isso, devem ter direitos iguais. Nosso tempo rompeu com a concepção antropológica por trás dessa proposta de ética. Do ser humano tratado como um fim em si, passamos a ser universalmente tratados como meios. Se há uma nova ética ou se não é mais possível ética nenhuma a partir desse novo patamar, é um aspecto a discutir. Qual é a ética possível quando fomos transformados em meios e deixamos de tratar uns aos outros como um fim em si?  Ora, desse momento em diante, devemos encarar a realidade. Vivemos sob o sistema em que cada um é rebaixado a meio, em que a questão da ética está em suspenso.

Immanuel Kant

As tentativas de compreender e explicar o capitalismo servem ao processo de superá-lo. Está provado que o capitalismo não é justo para a maior parte das pessoas que habitam o mundo porque o acúmulo do capital nas mãos de poucos seres humanos, alguns indivíduos e suas famílias, em detrimento da imensa maioria da população mundial, uma grande parte em estado de inanição, implica processos de exploração do trabalho humano e de apropriação indébita do patrimônio universal, incluso o imaterial, marcados por processos de injustiças sociais e políticas até o extremo da violência. “O terrorismo é parte do caráter totalitário e autoritário do capitalismo que, em sua forma neoliberal, não permite a diferença. Não permite a democracia e, ao mesmo tempo, precisa criar um clima de desnorteio para que ninguém mais seja capaz de se questionar sobre o estado injusto das relações econômicas. O capitalismo é terrorismo como psicopoder em estado puro” – adverte a filósofa Marcia Tiburi, em Neoliberalismo: o capitalismo como terrorismo (Cult, 27/09/2019).

Márcia Tiburi – Colunista – Revista Cult

Desenvolvimento sustentável pra valer? Só com ajuste de contas com nosso passado/presente. Em uma época de muitas exigências e pouca compreensão, resíduos de instituições autoritárias sobrevivem ao movimento civilizatório e são mais perceptíveis em momentos de perda da liberdade ou de segregação de pessoas. Nosso dever de casa como nação brasileira está terrivelmente incompleto.

 

 

Por Marcos Fabrício Lopes da Silva*

* Professor nas Faculdades Promove de Sete Lagoas (2005-2009), Fortium (2013) e JK (2013-2020). Jornalista, formado pelo UniCEUB. Poeta. Doutor e mestre em Estudos Literários pela UFMG.

 

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https://libertasnews.com.br/category/colunas/palavra-livre-marcos-fabricio/

1 Comment

  1. Maria+oliveira disse:

    Adorei o artigo!A desigualdade é algo que nos deprime.É preciso que se fale no assunto e se discuta uma forma de melhorar isso.Todos temos direito a dignidade.

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