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Em um táxi de Santiago

Em um táxi de Santiago

De repente, sem esperar ou que se dê conta do que está acontecendo, alguns muitos anos, uma parte significativa da vida, se passa em flash milésimo na sua cabeça, dentro de um carro, em um táxi, a muitos quilômetros de sua casa ou de seu país.

Quantas mentiras tínhamos contado durante todos aqueles anos? Era melhor que o sonho existisse apenas na abstração das palavras ou mediados somente por tecnologias comunicativas? Por que este filme em cartaz agora?

Estranheza à primeira vista, saudade e vergonha, receio e afeto, paixão e cuidado, uma dúvida, era real aquele começo de noite em Santiago? O barulho, a casa de outrem, as apresentações de pessoas desconhecidas, a cerveja rala tomada em muitas copas, o abacate e o petisco, o frescor veranil que vinha da cordilheira ao sul. Era real, estávamos ali de verdade.

Mas também era insuficiente o momento, aquele encontro. Preferíamos, desejávamos estar a sós, livres e sem censura nas falas e nos olhares.

Um dia para falar sobre tudo e sobre todos, sobre a gente, dos desencontros, do amor e do real, mesmo que não combinados entre si. Não havia outra reação possível, ninguém tinha se preparado para aquilo, para se ver, o além do virtual, tudo tinha ficado nos planos e não existia a opção do real.

O táxi foi o próprio altar por dez minutos, o momento mais íntimo, o casamento verdadeiro de quem não é covarde, mas nunca teve a coragem de seguir as mentiras e os planos distantes. O táxi se foi, seguiu sem dar seta…

O que restou foi o bar dos trabalhadores, dos imigrantes, dos que só têm lunes para beber e tentar mentir e fazer planos à espera de um transporte alternativo.

 

Por Igor Figueiredo

 

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https://libertasnews.com.br/category/o-barao-da-rale/

 

 

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