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EQUILÍBRIOS DA NATUREZA

EQUILÍBRIOS DA NATUREZA

 

 

Possuímos uma forma de inteligência reflexiva, capaz de construir conhecimentos racionais e emotivos, comandados por um sistema nervoso centralizado no cérebro, e somos capazes de criar formas de inteligência artificial para nos ajudar na solução e resolução de problemas com maior agilidade e rapidez através de sofisticada tecnologia. Por outro lado, não podemos negar a possibilidade de haver outras formas de inteligência, seja ela semelhante aos padrões humanos e animais, ou mesmo apoiada em sistemas descentralizados e funcionais, como a inteligência dos seres vegetais – chamada, por Josafá Carlos de Siqueira, de “inteligência verde”.

Padre Josafá Carlos de Siqueira

 

Infelizmente, assim como o metabolismo entre sociedade e natureza no mundo moderno produziu a crise ambiental, de igual modo a nossa natureza interna vem sofrendo as consequências inadvertidas e indesejadas de um processo civilizatório em guerra com o psiquismo arcaico do animal humano e calcado no culto fanatizado da tecnologia e da máxima eficiência em tudo. A crise da ecologia psíquica é fruto da severidade da renúncia instintual imposta por um processo civilizatório agressivamente calculista e cerebral: uma forma de vida em que a convenção e a hipocrisia permeiam os vínculos erótico-afetivos enquanto a competição feroz, a ansiedade e a ambição irrestrita dominam o mundo da produção e do consumo.

Em Equilíbrios da Natureza (Garimpo, 2003), os músicos Régis D’Almeida e Paulinho Andrade chamaram muito bem a nossa atenção para os dilemas socioambientais: “Assim como no chão não tem estrelas/No céu não se vê nenhuma flor/No sertão não sabe o que é geleira/No Alasca também não faz calor/Assim como o gato persegue o rato/É também perseguido pelo cão/O cão por sua vez respeita o lobo/E o lobo respeita o leão/São os equilíbrios da natureza/Criados por Deus nosso senhor/Você tem amor e não tem sorte/Eu tenho sorte e não tenho amor/Assim como se nasce de repente/Também se perde a vida num segundo/Como a planta nasceu pra ter raízes/O homem nasceu pra correr mundo/Assim como quem sobe alcança a glória/Quem cai só encontra infortúnios/Porque se o céu não tem limites/O inferno também nunca tem fundo”. 

O mundo moderno nasceu embalado por três ilusões poderosas: I) a de que o progresso da ciência permitiria banir o mistério do mundo e elucidar o sentido da existência; II) a de que o projeto de explorar e submeter a natureza ao controle da tecnologia poderia prosseguir indefinidamente sem atiçar a ameaça de grave descontrole da biosfera; III) a de que o processo civilizatório promoveria o aprimoramento ético e intelectual da humanidade, tornando nossas vidas mais felizes, plenas e dignas de serem vividas.

Ao contrário do que se esperava, aumentou a disparidade entre ricos e pobres; cresceu a exclusão social; a paz não foi alcançada como uma condição estável e natural da humanidade; cada vez mais, menos pessoas detêm mais riqueza e consomem mais recursos da natureza; melhoramos a eficiência energética sem, contudo, valorizar as fontes renováveis de energia. Hoje somos capazes de provocar destruição em grande escala e em pouco tempo, com um formidável arsenal bélico. Somos capazes de cobrir o planeta de lixo, resíduos de nosso perdulário consumismo. Ao mesmo tempo em que resolvemos conquistar o espaço sideral, não resolvemos questões básicas, como o provimento de alimentação, educação, saúde e saneamento à metade da população do planeta.

Ailton Krenak e o Livro “Ideias para se adiar o fim do mundo”

 

 

Não temos o direito de depredar a natureza como o fizeram aqueles que hoje estão preocupados com nosso comportamento predatório. Como devemos, então, alcançar o desenvolvimento sustentável? O líder indígena e ambientalista Ailton Krenak, autor de Ideias para adiar o fim do mundo (2019), defende a importância de o Brasil valorizar sua identidade multicultural e rejeita, com razão, teses deterministas de subdesenvolvimento econômico – conceito que também não julga suficiente para medir qualidade de vida ou muito menos felicidade:

“Como justificar que somos uma humanidade se mais de 70% estão totalmente alienados do mínimo exercício de ser? A modernização jogou essa gente do campo e da floresta para viver em favelas e em periferias, para virar mão de obra em centros urbanos. Essas pessoas foram arrancadas de seus coletivos, de seus lugares de origem, e jogadas nesse liquidificador chamado humanidade. Se as pessoas não tiverem vínculos profundos com sua memória ancestral, com as referências que dão sustentação a uma identidade, vão ficar loucas neste mundo maluco que compartilhamos”.

 

Marcos Fabrício Lopes da Silva*

* Professor nas Faculdades Promove de Sete Lagoas (2005-2009), Fortium (2013) e JK (2013-2020). Jornalista, formado pelo UniCEUB. Poeta. Doutor e mestre em Estudos Literários pela UFMG.

 

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https://libertasnews.com.br/category/colunas/palavra-livre-marcos-fabricio/

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