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FAZENDO A LOUVAÇÃO

Nesses dias, volta-me à memória um sucesso de Gilberto Gil e Torquato Neto (1944-1972), Louvação (1967): “Vou fazer a louvação/ do que deve ser louvado…/ louvando o que bem merece/ deixo o que é ruim de lado”. É sábio deixar o ruim de lado, porque de tanto ele ser falado, parece estar sendo chamado. Tem gente aí que só fala no que é ruim, exercitando o nosso masoquismo, o desejo de sofrer, talvez para pagar os pecados e se penitenciar para merecer o céu, ou é porque tem mesmo na cultura esse luto, essa tristeza, essa melancolia, que os gritos de carnaval e futebol não conseguem disfarçar. Antídoto para isso é olhar o lado bom dos fatos.

Você, com certeza, já se pegou perguntando, em tom de curiosidade, para onde as mudanças desse mundo vão nos levar e qual será o destino das próximas gerações. Todos nós, ao lançar os olhos para o horizonte, questionamos qual o melhor caminho para o futuro. Uma coisa é certa: para chegar bem ao destino final é preciso enxergar a educação como uma das principais ferramentas de transformação do mundo. Aprender deve ser o ponto de partida de qualquer pessoa que busca realização e sucesso numa sociedade cada vez mais exigente e dinâmica. O desafio atual é garantir que o processo de aprendizagem seja mais efetivo, afinal educar não significa apenas transmitir conhecimento. Escola e professores devem servir como um guia norteador que levam o aluno ao aprimoramento de suas capacidades intelectuais, sociais e políticas, promovendo o desenvolvimento humano.

E a evolução da educação deve seguir o princípio de que o aprendizado é construído a partir da realidade do aluno. O interacionismo valoriza a bagagem que cada indivíduo traz de seu cotidiano e, a partir da percepção da realidade que ele já possui, estimula a busca do conhecimento. O processo educativo torna-se assim mais adequado ao mundo atual. No conceito do interacionismo, não é possível oferecer ao aluno a aprendizagem de conteúdos conceituais sem considerar seus modos de agir e pensar, suas crenças e valores. O que nos leva a concluir que não há separação entre vida e educação. E, ainda, se enxergarmos para além da figura de cada aluno, a importância da formação do cidadão, vemos que é preciso prepará-lo para muito além do vestibular e ingresso em uma faculdade.

Vencida a etapa do Ensino Superior, existe uma vida inteira a ser vivida, e, quanto mais preparados estiverem, mais condições esses futuros cidadãos terão de corresponder às necessidades e expectativas do mercado de trabalho e da sociedade, podendo contribuir significativamente para a transformação do mundo. Durante muito tempo, esperava-se do indivíduo que ele apenas reproduzisse aquilo que ouviu e aprendeu. Hoje, é necessário educar pessoas para que se transformem em cidadãos com senso crítico e capacidade de interagir com o cotidiano a sua volta.

Criador: leolintang Crédito: Getty Images/iStockphoto

Cada vez me convenço mais, se você quiser ter poder, falar sem ser calado pelos conhecimentos alheios, se você quiser crescer no trabalho, na vida familiar, em tudo, leia. Leia muito, leia de modo diversificado, a leitura faz murchar a ignorância. Uma cabeça sem conteúdo não passa de uma melancia sobre os ombros. Já está de sobejo conhecido que incontáveis crendices se alicerçam sobre fantasias ou sobre solertes mentiras, invenções de humanos espertos visando a manter o povo ignaro nas trevas da ignorância. Aliás, a sabedoria milenar nos ensinou que “no muito saber está a angústia”. De fato, saber angustia e angustia porque nos faz pensar e, pensando, nenhuma crendice ou superstição subsiste. Temos que combater duramente essa ignorância ampla, geral e destruidora do povo, a começar por derrubar os credos estultos que condenam humanos ao desespero de eternidades, e nenhuma gratificação no aqui e agora.

Sobre a “dissonância cognitiva”, nome bonito que a Psicologia dá aos nossos conhecimentos e ao que não fazemos com eles, todos sabemos do que fazer e do que não fazer, todavia, ignoramos o que sabemos e fazemos o que nos gratifica. Resumindo, dissonância cognitiva é o descompasso que existe entre o que sabemos e o que fazemos. Desafios são questões que temos que enfrentar, mudar, adotar ou iniciar, tudo visando a uma vida melhor. Todos nós temos questões imutáveis em nossa personalidade e corpo físico. É aceitar-se, faz bem. Há, todavia, questões que se não nos fazem felizes, podemos mudar, tudo vai depender da vontade e da persistência. E essas mudanças são as que nos vão orgulhar e fazer felizes. O resto é correr atrás do vento ou alimentar vaidades inúteis.

Não existe obra sem um pensamento anterior que a viabilize. Ora, se os pensamentos criam a realidade material que nos serve de todos os modos, por que não criariam nossa felicidade, nossa saúde, nossa vida? Ou limpamos os pensamentos, ou acordamos para essa responsabilidade, ou vamos continuar procurando desculpas para nossas derrotas e vidinhas sem graça. – “Cala-te e ter-te-ão por sábio”, sentenciou o rei Salomão, o da Bíblia. Outra frase magnífica e na mesma linha peguei-a lendo Baltazar Grácian, jesuíta espanhol, 1601-1659. Grácian foi direto: – “Fala, se queres que te conheça”.

Às vezes precisamos enxergar o Brasil com outros olhos. Aqui, confunde-se o país – a terra e o povo – com o governo e com os atuais detentores de mandatos eletivos, parlamentares da democracia dita “representativa”. “A minha pátria é como se não fosse, é íntima/Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo/É minha pátria. Por isso, no exílio/Assistindo dormir meu filho/Choro de saudades de minha pátria”. Trata-se do magnífico Pátria minha (1949), um dos mais belos poemas escritos por Vinicius de Moraes (1913-1980): “Não te direi o nome, pátria minha/Teu nome é pátria amada, é patriazinha/Não rima com mãe gentil/Vives em mim como uma filha, que és/Uma ilha de ternura; a Ilha/Brasil, talvez”.

 

Por Marcos Fabrício Lopes da Silva*

* Professor nas Faculdades Promove de Sete Lagoas (2005-2009), Fortium (2013) e JK (2013-2020). Jornalista, formado pelo UniCEUB. Poeta. Doutor e mestre em Estudos Literários pela UFMG.

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