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GLOCALIZAÇÃO

GLOCALIZAÇÃO

 

 

Provincianismo global, segundo Jorge Amado (1912-2001): “— Entretanto, aquela francesinha que conhece o mundo todo, que já teve casa de rendez-vous em Pequim, já foi amante de pretos na Colômbia do Cabo e ganhou dinheiro em Monte-Carlo, julga que viaja para um país chamado Buenos Aires, que tem por capital o Brasil, uma cidade onde a população anda de tanga. E posso lhe afirmar, senhor bispo, que ela vai até lá exatamente para poder andar de tanga, pois é primitivista” (O país do carnaval, 1931). Vivemos numa época marcada pela convivência tensa entre duas tendências aparentemente opostas: de um lado, o historicismo — entendendo essa categoria no seu sentido específico de respeito rigoroso às diferenças históricas e culturais —, do outro, a dissolução das fronteiras nacionais e a implantação do capitalismo na sua fase de globalização e internacionalização do capital.

Entretanto, podemos colher inspiração e fundamento para propor um conjunto de sete princípios — Identidade, Amor à Humanidade, Informação, Escolha, Hospitalidade, Solidariedade, Transcendência ­—, que podem contribuir para a construção de uma globalização de rosto humano. A glocalização consiste em promover uma cultura de relação com o mundo todo, não perdendo a referência à nossa inscrição de origem. A glocalização é precisamente o que garante o ponto de equilíbrio da globalização de rosto humano a partir de uma formação do “homem todo e de todo o homem”, no dizer do padre jesuíta Manuel Antunes (1917-1985).

Embora a “cultura global” esteja recheada de valores homogêneos, os produtos da globalização são absorvidos e interpretados de diferentes maneiras, de acordo com a cultura de cada local. A sociedade global não se constitui de modo autônomo, independente e alheio à sociedade nacional, uma vez que ela se planta na província, na nação, na região, nas ilhas, nos arquipélagos e continentes, compondo-se com eles em várias modalidades, em diferentes combinações. Foi em 1999 que surgiu a glocalização, como mistura de globalização com localismo, ou seja, a criação de produtos orientados para o mercado global, mas adaptados para atender a culturas locais. Ponte entre o global e o local, a glocalização abrange o conhecimento, as técnicas e a cultura que passa ser conhecida mundialmente, saindo da sociedade local e se espalhando para o global.

Pelo termo globalização tem-se entendido, num primeiro momento, a idéia de planetarização, com origem etimológica do termo grego plakso, que para Muniz Sodré “significa nivelamento ou aplastamento das diferenças. (…) [e, num segundo momento] a interconexão de economias parcelares por um novo modus operandi e com o auxílio de novíssimas tecnologias integradoras” (Globalização, mídia e cultura contemporânea, 1997). Milton Santos (1926-2001) afirma que “A globalização é, de certa forma, o ápice do processo de internacionalização do mundo capitalista” (Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal, 2001).

Milton Santos (1926-2001)

 

Tem-se evitado o discurso de naturalização do processo de globalização, como se estivesse vinculado pura e simplesmente às inovações tecnológicas, e não a intenções econômicas e ideológicas. Rodrigo Duarte afirma que a partir do chamado capitalismo tardio, surgem os elementos constitutivos do atual mundo globalizado, que é composto “principalmente pela existência de grandes conglomerados de interesse econômico e militar, aliada à incorporação de conquistas tecnológicas com o objetivo de otimizar o desempenho da economia, ao mesmo tempo em que cria coesão ideológica em torno das diretrizes principais do sistema de dominação política” (Teoria crítica, estética e educação, 2001).

A dimensão estética e o mundo da informação ocupam lugar de destaque na atual conjuntura econômica e cultural do mundo globalizado. Entretanto, isso não exclui o fato de que as relações de trabalho e produção continuam vigorando como essência material, sobre a qual a sociedade global se firma. Aproveita-se de diversos elementos específicos das culturas locais e regionais, mas nega-se dissimuladamente a todos os elementos que signifiquem algum tipo de negação da cultura capitalista de consumo. Sabe-se que as diferenças culturais, provavelmente, serão tão bem acentuadas quanto assim forem as desigualdades econômicas.

O “espaço de fluxo” e o “tempo intemporal” das redes de informação-comunicação, nas quais são desenvolvidas hoje as práticas sociais dominantes, constituem uma dimensão espaço-temporal, em muitos casos, não globalizante; pelo contrário, promovem a generalização de uma visão parcial do mundo: uma globalização sem globalidade. O objetivo é, então, demonstrar como é construída uma ideologia da globalização a partir de um pensamento que é tudo menos global (total, integral) e uma espacialidade que é fisicamente dispersa, mas antropologicamente circunscrita, economicamente homogênea, mesmo que socialmente desconectada.

A questão diferencial está em abordar o multiculturalismo sem, contudo, suprimir as contradições próprias do sistema vigente, pelo contrário, estabelecendo relações entre as categorias de cultura, gênero, etnia com a categoria de classe, e evidenciando processos de opressão política e exclusão social. Logo, a construção da cidadania não se dá a partir de gentilezas e concessões, mas a partir de processos onde as tensões, antagonismos e intransigências são muitas vezes necessários. O espaço público é lugar privilegiado não simplesmente para o consenso, mas especialmente para o contraditório, para o movimento dialético de forças que delineiam os rumos da história.

 

 

Marcos Fabrício Lopes da Silva*

* Professor autônomo e pesquisador independente. Jornalista, formado pelo UniCEUB. Poeta. Doutor e mestre em Estudos Literários pela UFMG.

 

 

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