Hyanna Solta o Verbo: Literatura e Cena Autoral – FÊ COSTA

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Hyanna Solta o Verbo: Literatura e Cena Autoral – FÊ COSTA

Autodidatismo e Hiperatividade
(Hyanna da Cunha)

Em meio a uma sociedade injusta (e não apenas socialmente) que cobra e exige canudos, certificações e formação acadêmica resistem os loucos natos, os criativos, os artistas rebeldes.

São os caras sempre subestimados, vistos com desdém, mas que quebram os protocolos e criam a arte fora dos padrões e de toda previsibilidade.

Não há virtuosismo, mas há perfeccionismo, auto cobrança, tristeza, frustrações, depressão, dificuldades financeiras e emocionais, falta de apoio, suporte, amizade e muita trairagem.

Os artistas do underground que trazem consigo (correndo no sangue) a persistência dos fortes, a inventividade e a capacidade de se reconstruírem mesmo depois da derrota, da traição, do roubo de suas viagens mais pessoais, do desamor e de cada surto recorrente são a renovação da cultura enlatada, imposta, dogmatizada e ensinada tal qual religião incontestável.

Muitos desistem e se encaixam ao sistema, muitos morrem ou cedem ao autoextermínio como forma de estancar a dor.

Incompreendidos esses ciganos mutantes, essas bruxas insanas, os mambembes desvalorizados e performers, os poetas alucinados e seu desvario são a saída, a possibilidade que ainda resiste e que pode abrir os olhos cegos pela normalidade.

É a hiperatividade do sonho e da insônia se materializando pelas esquinas e subúrbios, pelos muros, pelos bares “copo sujo”, rompendo os preconceitos, os pré-julgamentos, a anestesia e fazendo pensar desde sempre.

Você vai se permitir?

 

Então vamos juntos fazer uma viagem e conhecer um pouco da jornada de Fê Costa até o momento:

 

 

Antes de entrar na carreira propriamente dita gostaria de mencionar que Fê Costa, hoje com 50 anos e um artista autodidata maduro, viajado (falo isso também no sentido de viagens em si), extremamente qualificado e com uma bagagem de aprimoramento e trabalhos já produzidos (embora não com o reconhecimento e visibilidade merecidos) nasceu diferenciado – não se tornou diferente – e teve uma infância complexa e difícil, perdeu seu pai muito cedo, mas não vamos dissecar essa etapa por aqui.

A arte sempre foi um chamado, que ele mesmo a princípio talvez não compreendesse ou visse como tal e que a censura do mundo não facilitou desenvolver, mas uma criança que se interessava mais por um rádio “velho” e seu funcionamento do que outras coisas é apenas um exemplo das viagens inusitadas desse garoto, contudo faz-se necessário mencionar que o pai de Fê (Hely Costa) era um aficionado por futebol, rádio e fotografia, tendo o seu rádio portátil como companheiro e o hábito de registrar documentalmente os momentos e encontros familiares – influência e herança reconhecidas e valorizadas sempre pelo artista.

Hely Costa – pai de Fê Costa – um aficionado por futebol, rádio e fotografia, com o seu rádio portátil de estimação, 1960

A curiosidade e a rebeldia, a insatisfação com o mundo pulsando precocemente no peito e uma inquietude correndo nas veias. O ritmo frenético do pensamento e uma leitura da realidade crítica levaram-no a se identificar com a ideologia Punk (lógico!).

Fê Costa – jovem Punk, 1987

Em alguns momentos foi obrigado pela família (tradicional brasileira) ou pela vida/sociedade a tentar se encaixar e pensar contido dentro dos parâmetros da caixinha matrixial.

Trabalhou inserido no sistema fazendo o que chamariam de “tudo certinho”, até por necessidade de sobrevivência por um tempo, mas era doloroso ser conivente com tanta sujeira e acabou retomando a produção artística: fotógrafo, músico (instrumentista e compositor), poeta, produtor de conteúdo áudio visual. Com sua esposa Cris Torres sempre ao lado, ser de uma compreensão imensurável de suas viagens, que sempre o apoiou e fortaleceu (apoia e fortalece), criando sua filha Mariana Costa junto a esse processo todo de transmutação pessoal e profissional e cuspindo na cara da sociedade sempre que possível. A existência de Fê Costa é em si um ato de resistência.

Agora sim! Já mais contextualizados dentro do Universo Fê Costa trago um pouco de sua caminhada e carreira artística para que todos possam conhecer:

De agosto de 1999 até o ano de 2010 Fê Costa concentrou esforços em sua carreira/trabalho como fotógrafo. Foram várias oficinas exclusivamente voltadas para a fotografia comercial. Durante esse período a música ficou em segundo plano.

Em paralelo às suas pesquisas voltadas para o aprimoramento de técnicas digitais o artista produziu vários experimentos com música eletrônica, sendo essa a base do projeto que se consolidou a partir do início de 2013 quando o mesmo procurou o produtor musical belorizontino Bruno Couto com o desejo de regravar suas composições desenvolvidas entre os anos de 1990 até 1999.

Bruno teve a importância de ser quem deu a Fê a dica de que ele deveria valorizar o seu trabalho artístico como um todo e “unir todas as pontas”, produzindo algo mais abrangente, algo que abarcasse todo seu conhecimento das ferramentas nos campo áudio visual. Assim nasceu o projeto: “Entre Grafias, Ruídos e Paisagens”.

 

Dentro do se permitir (proposto desde o início) a narrativa muda aqui e essa proposta de abdução segue com uma entrevista que fiz com Fê Costa em 11/01/2021:

 

Fê, como você resumiria (se é possível) ou tentaria explicar para o público o seu projeto “Entre Ruídos, Grafias e Paisagens”?

“É uma proposta transmidiática, ousada e pulverizadamente utópica para os dias atuais, que uso para decodificar os elementos, os signos urbanos e a marginalidade. Alimentada pelo simples desejo de viver o agora, de existir e gozar sem pedir licença, estabelecer conexões improváveis com o futuro distante e singular sendo livre, libertário, anárquico: degeneradamente subversivo, mundano e ateu. Abraçar o novo sem medo e sem regras deixando o passado repousar em silêncio nas páginas que ficaram para trás. Com a poesia hibrida, expandida e sem fronteiras ser resistência e lutar contra o obscurantismo, a estupidez, o fascismo, os conflitos da pós modernidade e do aprisionamento social, combater a desinformação e principalmente a pós verdade.”

Porque vivo entre o céu e o inferno

Mercadoindigna

Desobediência Civil

Você considera que criou uma linguagem própria com seu trabalho?

“É difícil explicar o significado de minha linguagem estranha e atemporal, principalmente por que estou em busca do viver o prazer da experiência. Pode ser em uma deriva pelas ruas da cidade colhendo imagens e objetos ou em meu ateliê ressignificando linguagens, em um palco pulsando ou onde quer que seja. Cada ação em paralelo é como um pequeno fragmento poético e nada tem obrigação de ser e estar. Primeiro vem o prazer da entrega seguido do jogo da troca em harmonia que desagua em gozo pleno e farto.
Fotografo pensando em música, cores, formas, texturas, movimento. Uma relação quase sinestésica. Componho música pensando nas frequências sonoras, na luz, nas cores e na ambiência. Imagino as imagens, a performance, cuidando da estética visual e principalmente do conceito que amarra todas as minhas proposições.”

 

Você mencionou que seu pai despertou a sua curiosidade para a fotografia e o rádio. No caso da música quem ou o que te influenciou inicialmente?

“A música e a poesia desde sempre fizeram parte de minha vida. É inegável a influência de meus avós. Com meu avô materno aprendi os conceitos básicos da teoria musical, isso no início da década de 1980. A discalculia me custou muito caro por um lado e por
outro me proporcionou grandes transformações.

Reallejo

Suellen Araujo

Barulhista

 

E em que momento de sua vida você começou a interagir diretamente com a música?

“O primeiro violão, por influência de amigos, veio em 1984, virou guitarra em 1986 e montei a 1º banda (‘Vícios e Poder’) que existiu até 1991. A partir daí, várias tentativas sem sucesso regadas a muita sabotagem e culto às cópias das cópias: terrivelmente cover.
Foi inevitável seguir sozinho e claro, pela contra mão.
Já em 1999 tranquei minha matrícula no CEFAR, queimei minha agenda telefônica, mudei para um bairro distante para serenamente poder cuidar das duas pessoas de grande valor e importância em minha vida – minha esposa e minha filha – e fui tentar ser para ela o pai que a vida tirou de mim ou melhor: fui ser ‘Pãe’!”

 

De que forma o artista Fê Costa se preparou e/ou vem se preparando para tudo o que planeja artisticamente? 

“De 2013 até 2020 pude colher muitas referências participando de palestras, oficinas, workshops, laboratórios e residências artísticas. Da música para a performance e para dança. Do teatro ao cinema. Da literatura a fotografia e artes plásticas. Oportunidades que surgiram ao longo do caminho. Não foram escolhas adaptativas nem muito menos foi o querer seguir modelos bem sucedidos ou viés de prestígio. Tais referências artísticas serviram para ressignificar até meus descompassos cognitivos. Dei vida ao Projeto X-Nats (projeto de música e experimentação eletrônica). Da discalculia a Glitch Art, passando pela síntese, pelo Noise, pelo Pop e principalmente pela diversidade e multiplicidade cultural, e assim tudo se transformou em ideias cáusticas, emulações lo-fis, reverberações psicodélicas transformadas em desconstruções.
Aconteceram desdobramentos muito interessantes: Documentação fotográfica para livros, documentários e curta metragens. Premiação em competição fotográfica, participação em fotolivro coletivo e curadoria em mostras fotográficas. Fotografia still para documentários e curta metragens. Criação de instalações cenográficas e expográficas, live cine, live coding, ambientações sonoras para dança contemporâneas, jams de livre improvisação e, trancado em meu ateliê, muita experimentação que foram e e serão convertidas em Eps, Vídeo Clips e Vídeo Artes. Disponíveis em meus canais e redes sociais.”

 

Vem novidade por aí, Fê? E como a galera pode adquirir esses materiais frutos de seu trabalho e pesquisas?

“Em breve estarei lançando uma loja virtual que se chamara ‘daLetra’ onde pretendo comercializar uma diversidade de produtos personalizados com minhas artes visuais: um case com camisetas, almofadas, ecobags, canecas, posters, lambs, adesivos, zines, bonés, fotolivros e por aí vai. Sem falar do xodó da família que á a loja virtual ‘Solua e Maresia’ onde contribuo com a criação das estampas e modelagem das peças que são produzidas carinhosamente pela Cris Torres. A ‘Solua e Maresia’ tem um case de moda praia, piscina, laje e fundo de quintal e agora ampliando para os ‘bicho-grilo’ que praticam trekking, para os ‘eletro-psicodélicos’ paralelos, que frequentam haves e também para os ‘urbanoides’ de plantão.”

Sopa de Letrinhas A

Sopa de Letrinhas B

Sopa de Letrinhas C

Cidade de Encanto Vazio

 

Por Hyanna da Cunha

 

Se você curtiu e quer conhecer um pouco mais o artista Fê Costa e seu trabalho acesse os links:

https://xnatsproject.wordpress.com

https://fecostafotografias.46graus.com

– Facebook:

https://www.facebook.com/fotografiasfecosta

https://www.facebook.com/projetoxNats

https://www.facebook.com/aimagemdaletra

– Instagram:

@fecostafotografias

@projetoxnats

@imagemdaletra

@soluaemaresia

– SoundCloud:

https://soundcloud.com/xnats

– YouTube:

https://www.youtube.com/channel/UCj7nQfHev9ncZloRd8QBLTQ

 

Pós Verdade

8 Comments

  1. Edgar Martins disse:

    Parabéns,
    Matéria nota mil.
    👏🏼👏🏼👏🏼

    • Hyanna da Cunha disse:

      Muito obrigada, irmão. Agradeço por ter conferido. Que bom que curtiu. O trabalho do Fê Costa merece demais. Tem outras matérias bem bakanas em minhas colunas anteriores se quiser conferir e os links do Fê ao final dessa abrem portas para você conhecer mais sobre o trabalho dele também se desejar. Seguimos lutando. 🤜🤛

  2. Fê Costa disse:

    Não foram anos de colheita e sim de plantio, rega, cuidado e principalmente zelo. Meio século é muito diferente de 50 anos, penso assim. Não é uma carreira e sim uma vida. Não é uma vida dedicada a arte ou o que acredito ser arte. No fundo, não me interessa quem se julga ter o direito de definir o que é arte. Como perguntou o velho Bruscky: O que é arte? Para que serve? Em mim tudo se confunde pois, me importa viver, ser feliz em vida. Não me interessa um bom lugar depois de morto. “Homens mortos não contam histórias” e muito menos amam. Porem, a solidão e a indiferença são crueis, principalmente quando acreditamos em algo maior, quando temos proposito. Não estou falando de sucesso e sim de atenção. A Hyanna me mostrou que isso é possivel. Que existem pessoas por ai com dicernimento e sabedoria para ouvir e porque não ajudar. Quando um artista fala bem de outro demonstra o tamanho de sua grandeza, percepção e sensibilidade. Pena que não é assim. Mas ela me mostrou que existe, basta procurarmos. Como ela escreveu: “Uns desistem, muitos se destroem”. Eu preciso agradeçer ao Libertas News, porque o fator é multiplicador. Sem esse Portal não seria possivel ou melhor não existiria a materia. Conheci a Hyanna através das indexações do Youtube, tem pouco tempo. De cara saquei a importância de suas falas, textos e canções, ao descobrir que era da cidade, fui atrás e aos poucos fomos nos permitindo em trocas de mensagens construtivas e compartilhamentos pelas redes sociais, dividindo viagens pelo whatsapp. Quando recebi o convite feito por ela achei que não seria possivel, cheguei a pensar que seria mais um que iria me dar as costas sem me ouvir ou minimamente tentar entender o que se passava em minha cabeça de minhoca. Foi quando eu percebi, chorando como Chorão “Que pra quem tem pensamento forte o impossível é só questão de opinião. E disso os loucos sabem…”. Uma mulher de vida sofrida, lutas e enfrentamentos. Com uma capacidade absurda de compreensão e carinho mesmo nas duras exigências. Com um profissionalismo que eu não via ha muito tempo, soube me ajudar. Não colocar ordem na casa e sim as coisas da casa nos seus devidos lugares. Pra comprar uma matéria sem valor existe dinheiro. Mas não há dinheiro que pague o trabalho feito com amor e dedicacão. Como ela mesma adora dizer: “Com sangue nos olhos!” Para isso existe a gratidão e a troca recíproca com respeito e enaltações. Me despeço, feliz e agradecido fazendo uso das palavras de minha esposa, a Cris Torres: “Ler os textos e poemas da Hyanna é necessário para nós mulheres!”.

    • Elmo.colunista disse:

      Muito obrigado Fê Costa. As portas ou melhor dizendo, as redes do Libertas News e de todos nós que compomos esse portal estarão sempre abertas para você. Nós agradecemos a sua disponibilidade e boa vontade para a realização da matéria e vos parabenizamos pelo excelente trabalho como artista e como ser humano. Valeu. Juntos somos mais fortes que qualquer um de nós sozinhos.

      • Fe Costa disse:

        São portas, pontes, janelas, fios condutores e por ai vai. Não é um muro que divide ou uma cela que aprisiona. É Libertas News. Parabéns! Contem sempre comigo! Eternamente grato.

    • Hyanna da Cunha disse:

      Você me deixou sem palavras, Fê. Já conhecia o seu trabalho e um pouco de você e por isso fiz o convite para essa minha coluna no Libertas News, mas a intensidade e a verdade das trocas que aconteceram entre nós nesses dias de elaboração da matéria, como indivíduos e como artistas… realmente foi uma mágica acontecendo. Sou grata ao Universo, a você (esposa e filha também – pois ajudaram-no a ser quem é hoje) e ao Portal Libertas News por esse encontro. Seguimos loucos como somos, filtrando o mundo com nossos crivos pessoais, fazendo acontecer a nossa arte com sangue nos olhos sim, resistindo, evoluindo e amando nossos amigos de verdade. Grande abraço, meu irmão. “Tamo junto”, sempre.

  3. Como Sempre, Uma matéria com muita expressividade!

    Parabéns!! Hyanna

    • Hyanna da Cunha disse:

      Agradeço muitíssimo. Em meu nome e em nome do Portal Libertas News que abre esse espaço para a expressão cultural. Seguimos lutando.

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