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INFOCALIPSE

INFOCALIPSE

 

O que é fake news? De um modo simples, trata-se daquela notícia falsa e mentirosa que tem a intenção de induzir em erro os receptores da mensagem para promover algum tipo de vantagem dirigida a quem emite e difunde o comunicado enganoso. As fake news têm um formato que busca ludibriar o leitor, já que dá contornos de seriedade, às vezes misturando um dado real com um fictício, por exemplo. Em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, o historiador estadunidense Robert Darnton, autor de O Diabo na Água Benta (2012), afirma que os precursores do sensacionalismo e das mentiras hoje disseminadas por redes sociais vêm de tempos bem remotos: “Procópio foi um historiador bizantino do século VI, famoso por escrever a história do império de Justiniano. Mas ele também escreveu um texto secreto, chamado “Anekdota”, e ali ele espalhou “fake news”, arruinando completamente a reputação do imperador Justiniano e de outros”.

Robert Darnton (O Diabo na água Benta, 2012)

 

Sabemos que uma notícia não pode ser falsa. Se for falsa, deixa de ser notícia. De qualquer forma, essas mentiras, esses boatos ou essas fofocas impregnam as redes sociais e criam problemas tremendos a quem quer se informar. Pela definição do Dicionário de Oxford (2016), pós-verdade quer dizer “algo que denota as circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência para definir a opinião pública do que o apelo à emoção ou crenças pessoais”. Em outros termos: a verdade perdeu o valor. Não nos guiamos mais pelos fatos, mas pelo que escolhemos ou queremos acreditar que seja verdade. Esse cenário preocupante se agrava com a queda nos investimentos públicos e privados na formação filosófica da pessoa crítica. Pessoa crítica é a que tem posições independentes e refletidas, é capaz de pensar por si própria e não aceita como verdadeiro o simplesmente estabelecido por outros como tal, mas só após o seu exame livre e fundamentado.

 

 

Uma época esclarecida é aquela em que os homens atingem a sua maioridade pela capacidade, não só de pensarem autonomamente, mas também de não se deixarem manipular e dominar. Em vista disso, ela é um estágio alcançável com dificuldade, ainda mais nos tempos de hoje em que o angu do vulgo corrompe o paladar geral da população. Com o cinismo e a falência da crítica espalhados perigosamente pelas vias informativas e opinativas, as fake news em tempo de pós-verdade atualizam e agravam os velhos hábitos de manipulação dissimulada da realidade, agora projetada em mutação tecnológica assustadora.

 

Na atualidade, somos chamados a nos levantar contra a moderna falácia apresentada em forma de fake news, usando de senso crítico e paciência, ao checar a veracidade das informações que recebemos e consumimos, e não passando notícias e dados falsos para os demais, alertando-os, sempre que possível, sobre o embuste em questão. Convém colocar nossas barbas de molho sobre essa retórica fraudulenta que nos assombra há um bom tempo. Distorções nocivas da realidade compuseram a tese chocante defendida pelo ancião Pomada, personagem do conto O segredo do bonzo (1882), escrito por Machado de Assis (1839-1908): “Se uma cousa pode existir na opinião, sem existir na realidade, e existir na realidade, sem existir na opinião, a conclusão é de que, das duas existências paralelas, a única necessária é a da opinião, não a da realidade, que é apenas conveniente”. Logo, a indiferença com a verdade já mostra o veneno da corrupção perceptiva.

Em tempos de fake news, encontrar a verdade dos fatos pode equivaler perigosamente a procurar agulha no palheiro. Imagine viver numa civilização que não distingue verdade e mentira, sem um sistema confiável e de cooperação e sem ferramentas para resolver conflitos. Aviv Ovadya ressalta que o aumento da desinformação provoca a fragmentação da realidade (quando há um profundo sentimento de incompatibilidade e incompreensão da realidade) e a apatia (quando as pessoas simplesmente desistem de tentar dizer o que é real). O pesquisador e tecnólogo estadunidense alerta ainda que a nossa civilização está perdendo a habilidade de discernir fato de ficção, o que pode nos levar, segundo o estudioso, a um verdadeiro “infocalipse”. Com as plataformas digitais, as fake news se espalham bem mais rapidamente. É mais fácil não apenas mentir, mas também criar falsas informações que se pareçam exatamente com a coisa real. O melhor remédio para as fake news encontra-se no investimento continuado em infraestruturas educativas de autenticidade para qualificar o ecossistema de saberes, com modelos cada vez mais éticos e democráticos de se ter maior certeza sobre o que é real ou falso.

Aviv Ovadya

 

 

Marcos Fabrício Lopes da Silva*

* Jornalista, formado pelo UniCeub. Poeta, doutor e mestre em estudos literários pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

 

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