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Jantar para um só!

Jantar para um só!

 

Naquela noite de Taguatinga, mês ordinário, buscava um lugar para jantar. Na mercearia local da CSB o noticiário chegava ao fim. Calçado com meus sapatos comecei minha peregrinação pela Comercial Sul. O movimento das ruas naquele momento poderia ser descrito como usual, mas é justamente esse ordinário curioso que aguça os sentidos: cada passante carregava o seu universo de questões enredado na cadeia comum de fatos de nossos dias.

[Primeiros estabelecimentos comerciais de Taguatinga na Avenida Central em 1961. Foto: Getúlio Romão]

 

Todavia, as ruas não se detêm às minhas questões: o movimento continua imperturbável sob os calçados novos ou gastos da fauna taguatinguense. Os letreiros da comercial transmitiam as várias ofertas: hipertrofia muscular acelerada, o cabelo mais liso, massagem terapêutica, psicoterapia a preços módicos, roupas requintadas e muito mais. Entre um passo e outro entro em uma lanchonete de franquias com a girafinha no seu letreiro. Pratos feitos baratos: é tudo que eles prometem quando se trata desse estabelecimento. Em parte é verdade, mas a comida não é lá essas coisas. Aberto como estava, alguns dos motoboys aguardavam pedidos fumando cigarros e discutindo a colocação do Flamengo.

Após fazer o pedido, me sentei ao fundo como se o lugar estivesse todo cheio e ocupado. O vazio das cadeiras próximas a mim completavam o quadro geral de minha solidão naquele jantar. Estar só durante as refeições era já um fato ordinário e um pouco mórbido que tentava esquecer me alimentado fora de casa. Uma das dimensões curiosas de estar sozinho sempre é tentar se reconfortar com o movimento diário das ruas: se esconder onde há gente! Perceber-se em sociedade minora os pensamentos melancólicos que brotam de uma mente conturbada.

[Taguatinga: Avenida comercial, 1966. Foto: Getúlio Romão]

Àquela altura adentrava a lanchonete uma jovem moça com um filhinha pequenina, bonita menina de cabelos encaracolados de uns 4 anos de idade. A mãe se aproximou de uma das mesas assentou a criança e a advertiu:

— Vou fazer o nosso pedido e você fica aqui bem quietinha. Viu? Nada de ficar correndo aqui dentro. — asseverou a jovem mãe em tom calmo, porém firme.

— Tá bom, mamãe. — disse a menina com uma expressão adorável e amorosa que só as crianças pequenas podem fazer.

Enquanto devorava meu jantar com prazer e meus instintos mais elementares eram saciados, as questões em minha mente cessaram. Era uma espécie de suspensão agradável diante das fadigas diárias e daquela estranha sensação que sempre me afligia. Havia, de fato, algo inquietante nesse modo de levar a vida. Vivê-la de modo irrefletido é como viver à deriva, seguir a dança da conhecida mediocridade. Esforçar-se para viver reflexivamente tampouco traz algum alento. Mais questões levantadas, mais inconformidade perante o existir. O vazio de opções concretas para preencher a existência de significado denunciava todo um cardápio de fugas, escapismos, e auto-ilusões. Um inferno provisório insuportável se abria debaixo de meus pés: começavam as inquietações. Assim, uma retomada de sensações simples e primitivas ajudavam a conter a ansiedade.

[Taguatinga: década de 90. Acervo DNWK C.]

 

Subitamente, um ruído me chamou a atenção. A menina batia o garfo na mesa tamborilando o ritmo de uma canção juvenil. Enquanto se distraia com a brincadeira sonora, a mãe chegava com a bandeja de seu jantar.  A jovem moça exercia seu papel maternal com excelência e explicava as regras à mesa:

— Não faça sujeira e use os talheres. Agora, a mamãe vai pegar o jantar dela para a gente comer. — dizia a mãe em tom angelical e amoroso.

A criança assentia com a cabeça e olhava em volta para a semi-vaziês daquela lanchonete. Várias mesas vazias se interpunham entre ela e minha estranha figura observada por ela frontalmente. Os olhos da criança então se detiveram com uma expressão de viva curiosidade. Uma questão surgia naquele momento:

— Mamãe, mas porque ele tá jantando sem a mãe dele? — questionava apontando em minha direção. Elaborara uma pergunta em um tom de dúvida autêntica. O estranhamento era patente em sua indagação.

— Ele já é grande e pode jantar sozinho, querida. — respondeu a mãe com calma, em tom carinhoso, como quando os fatos da vida se enunciam em pequenas lições ruminadas das mães para os filhotes.

[Taguatinga: Praça do relógio. Foto: Arquivo Público]

 

A vida é curiosa, mas também é uma piada de muito mau gosto. Para além de um ensinamento materno banal e cotidiano, prevalecia a sabedoria inocente de uma criança. Naquele dia, somente as suas lentes infantis conseguiram atravessar a minha alma e enxergar minha solidão. A noite iniciava-se mais triste e uma sensação amarga de dúvida e melancolia se abatia sobre mim. Seria minha solidão assim tão evidente? Até mesmo para uma criança? Ou seria evidente somente para a sua sensibilidade infantil?

Conclui meu jantar e parti. Saí de lá encadeando meus passos como se houvesse algum refúgio, que no íntimo sabia não estar em lugar algum.

 

 

Por Glauco Lobo*

* Glauco Lobo nasceu em Brasília-DF, em 1982; formou-se em 2009 na Universidade de Brasília em História (bacharelado e licenciatura); atua na educação pública como professor da educação básica desde de 2010.

 

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