Cinema – um sonho compartilhado nas telas!
14/07/2021
O PATO E O PACTO
20/07/2021

MATÉRIA E ENERGIA

MATÉRIA E ENERGIA

A vida moderna condicionou o ser humano, transformando-o numa máquina de produção e consumo. Por isso, uma das mais difíceis travessias é a que nos faz percorrer o caminho entre a epiderme e a vida interior. O budismo tibetano tem razão ao afirmar que, malgrado todo avanço científico e tecnológico, cada pessoa é ontologicamente a mesma desde que o símio tomou consciência de que o galho de árvore em sua mão poderia servir-lhe de arma de ataque e de defesa. Aristóteles (348 a.C.-322 a.C.) sintetizou-nos em esferas sensitiva, racional e espiritual, como unidade que exige equilíbrio. A exacerbação de uma resulta na atrofia das outras. Só a predominância do espiritual é capaz de imprimir sensatez “às loucas da casa”, como frisou Teresa de Ávila (1515-1582), evitando o sabor de náusea dos sentidos, descrito por Sartre (1905-1980), bem como o racionalismo que, ao contrário de Tomás de Aquino (1225-1274), julga equivocadamente que a razão é a suprema expressão da inteligência.

Aristóteles                                         Teresa de Ávila                                                      Sarte                                    Tomás de Aquino 

O universo se compõe de matéria e energia. A matéria consiste em tudo aquilo que ocupa lugar no espaço e apresenta peso. Tudo que é sólido, líquido ou gasoso é uma forma de matéria. A energia pode ser definida como uma força capaz de produzir ação e movimento, sendo expressa em termos das unidades do trabalho que realiza. Em outras palavras, energia é a capacidade de realizar trabalho. Com a finalidade de ordenar os nossos pensamentos e raciocínios, chamaremos de ente a toda concepção emanada da mente dos seres animados, podendo ou não ser constatada pelos dados sensíveis. Os entes podem ser abstratos ou concretos.

Chamaremos de coisa a todos os entes concretos, isto é, que podem ser constatados pelos dados sensíveis. Ente abstrato é todo aquele que deriva da mente de um ser animado, mas que não pode ser constatado pelos seus dados sensíveis. Chamaremos de substância a toda porção indefinida de matéria e energia. Chamaremos de corpo a toda porção limitada e definida de matéria e energia. Diremos que um corpo está em equilíbrio quando vive o que chamamos de ciclo de transformações naturais. Enfim, qualquer que seja a forma organizativa da matéria, suas unidades básicas de construção vivem em constante movimento. Basicamente podemos dizer que o “motivo” das transformações é a busca pelo equilíbrio energético entre as partículas constituintes da matéria.

Todo corpo, sendo uma porção de matéria, constitui um potencial energético. Chamaremos de “ser” a toda porção definida de matéria e energia viva, ou seja, ser é todo corpo dotado de vida. Vida é a capacidade de reprodução de um corpo, isto é, capacidade de se multiplicar e gerar novos seres semelhantes. Como exemplo de seres temos: uma árvore, um homem, um boi, um micróbio, um pé de feijão etc. Significando o ritmo da criação, a natureza toda, nas plantas, nos animais, nas pedras, nos humanos, está nesse fazer amoroso, no gozo de sua beleza. Cada corpo é oficina de produção e é templo de escuta da natureza. Existir é ir além de nós mesmos, é caminho de transcendência: é encontro.

“Será possível que a humanidade continue a crescer e viver sem interrogar-se quanta verdade e quanta energia está perdendo ao negligenciar a incrível força que ela tem no amor?” – indagou o filósofo e teólogo Pierre Teilhard de Chardin (1881-1955). No movimento de manter relações, é um ser-intencional, janela que se abre, que estabelece contatos, que entra em universos diferentes, que tece uma infindável rede de participações e de diálogos sem fim… Esse amor que incita a vontade, que a empenha a estabelecer relações de solidariedade e parceria. A concórdia é a essência da vida, considerando que a vida é um conjunto de interações. Em seu livro A segunda criação (2000), o biólogo Ian Wilmut, famoso por ser o “pai” da ovelha Dolly, o primeiro mamífero gerado pelo processo de clonagem, descreve o diálogo como sendo fonte de vida:

“Os genes não operam isoladamente. Eles estão em diálogo constante com o restante da célula que, por sua vez, responde a sinais de outras células do corpo que, por sua vez, estão em contato com o ambiente externo. Quando esse diálogo não se processa corretamente, os genes saem de controle, as células crescem desordenadamente, e o resultado é o câncer”. É interessante a visão do geneticista: o câncer é resultado da falta de diálogo. Pode ser o câncer orgânico, tumoral, mas também o câncer social, das relações, que mata igualmente.

Ian Wilmut e a ovelha Dolly

Tudo o que é vivo – seja ele uma única célula, seja um organismo multicelular ou uma comunidade composta de indivíduos diferentes uns dos outros – precisa encontrar soluções que lhe possibilitem preservar seu tecido relacional interno desenvolvido até então. Isso é difícil, pois tal ordem interna sofre continuamente transtornos advindos de influências externas. E a causa desses distúrbios é justamente a abertura, própria de todos os seres vivos, a influxos exteriores, necessários para instaurar e preservar as estruturas internas, mas também desestabilizadores das mesmas. “O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem. O que Deus quer é ver a gente aprendendo a ser capaz de ficar alegre a mais, no meio da alegria, e inda mais alegre ainda no meio da tristeza!” – argumenta Guimarães Rosa (1908-1967), em Grande Sertão: Veredas (1967).

Assentar a existência-no-mundo é um difícil combate. A disposição afetiva que nos guia e nos mantém firmes nesse combate é a coragem. Somos seres sociais e, como tais, só em conjunto podemos moldar o processo de hominização. Só podemos instituir um modo humano de ser a partir do que nos une a outros seres vivos. O que nos une a nós mesmos, aos outros e ao mundo é o amor.

 

Marcos Fabrício Lopes da Silva*

* Professor nas Faculdades Promove de Sete Lagoas (2005-2009), Fortium (2013) e JK (2013-2020). Jornalista, formado pelo UniCEUB. Poeta. Doutor e mestre em Estudos Literários pela UFMG.

 

Confira outros artigos de Marcos Fabrício. Acesse o link abaixo:

https://libertasnews.com.br/category/colunas/palavra-livre-marcos-fabricio/

1 Comment

  1. Robson disse:

    Òtimoas reflexoes, viver realmente é um grande embate, meu caro Professor.E haja coragem, e haja movimento.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *