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O ABISMO DA DESIGUALDADE

O ABISMO DA DESIGUALDADE

Imagem de Frantisek Krejci por Pixabay

 

Muitos julgam que corrupção se resume a embolsar dinheiro público. Ignoram que ter como meta o enriquecimento pessoal de costas para os direitos e as necessidades da coletividade é tão grave quanto roubar. É reforçar as bases de uma sociedade fundada na competitividade, e não na solidariedade. A pós-modernidade, com suas novas tecnologias, contrai o tempo histórico e esgarça os espaços sociais, agora atomizados em tribos e grupos. O livre jogo das forças do mercado e a redução da presença do Estado na economia, tudo isso aliado à ausência de políticas de proteção em favor dos setores mais pobres, trouxe como consequência lógica uma transferência dos custos sociais para os setores populares e marginalizados da sociedade. Proclamar a livre competição entre pessoas e setores tão desiguais, é o mesmo que permitir a luta entre lobos e ovelhas.

Imagem de Steve Buissinne por Pixabay

O “abismo da desigualdade” se aprofunda cada vez mais, sendo que o modelo neoliberal contribui para isso de maneira eficaz. A “taça de champanha” é uma espécie de parábola da injustiça que hoje se vive em nosso mundo, onde um quinto da humanidade se apropria da maior parte dos bens, espoliando os direitos das quatro quintas partes do planeta. Não à toa, Lenine e Lula Queiroga compuseram a canção Rosebud (O verbo e a verba, 2002): “O verbo saiu com os amigos/Pra bater um papo na esquina,/A verba pagava as despesas,/Porque ela era tudo o que ele tinha./O verbo não soube explicar depois,/Porque foi que a verba sumiu./Nos braços de outras palavras/O verbo afogou sua mágoa, e dormiu./O verbo gastou saliva,/De tanto falar para o nada./A verba era fria e calada,/Mas ele sabia, lhe dava valor./O verbo tentou se matar em silêncio,/E depois quando a verba chegou,/Era tarde demais/O cadáver jazia,/A verba caiu aos seus pés a chorar/Lágrimas de hipocrisia./Rosebud/Dolores e dólares”.

Lenine e Lula Queiroga

 

Somos uma nação rica, muito rica. Mas sumamente injusta. O PIB brasileiro é de R$ 6,3 trilhões, suficiente para garantir R$ 30 mil per capita/ano para cada um dos 210 milhões de habitantes. Ou R$ 10 mil por mês para cada família de 4 pessoas. Desde a queda do Muro de Berlim, o sistema nos colocou viseiras que não nos deixam alternativa senão mirar o presente infindo. Impedem-nos de olhar para trás, como faz o anjo de Walter Benjamin (1892-1940), e contemplar, indignados, a assombrosa quantidade de vítimas da opressão e das tiranias. Estamos condenados a memoricídio — a morte da memória. Sem ela não há história e, muito menos, historicidade. Nem identidade e, portanto, vínculo atávico a gênero, classe ou nação. As viseiras também nos impedem de olhar para os lados e reconhecer a outricidade, a presença do outro e, assim, estender as mãos e praticar a solidariedade.

Só nos é facultado mirar o presente, aqui e agora, sem possibilidade de vislumbrar o horizonte de expectativas. As utopias se volatilizaram. O futuro se contemporanizou na agoricidade, sem portas e janelas abertas à esperança. Todas as marcações se repetem. Assim, fechados em nossas bolhas virtuais, somos impregnados pelos sentimentos de que as guerras são inevitáveis, a desigualdade social é mera entropia do progresso, e a miséria é a amarga recompensa de quem não soube aproveitar as múltiplas oportunidades que a vida oferece. Os fatores ideológicos que criam, hoje, os piores venenos à prática dos direitos humanos são o preconceito e a discriminação. Direitos humanos não é “coisa de bandido” como alardeiam os que jamais pensam nos direitos dos pobres. É um dos mais elevados marcos jurídico e moral de nosso avanço civilizatório.

Imagem de Engin Akyurt por Pixabay

Desde a ditadura militar (1964-1985), nunca houve tantos retrocessos nos direitos humanos no Brasil como agora, sob Bolsonaro. Somos governados por autoridades que insistem na impunidade das forças repressivas, o que representa sinal verde para a eliminação sumária de suspeitos ou mesmo de cidadãos insuspeitos. Em 25 de maio de 2022, o Brasil assistiu, estarrecido, o assassinato de Genivaldo de Jesus Santos por agentes da Polícia Rodoviária Federal (PRF). Parado em uma blitz na cidade de Umbaúba, interior do Sergipe, por estar dirigindo uma moto sem capacete, o homem de 38 anos foi agredido, com joelho no pescoço, algemado e jogado no porta-malas do camburão da corporação. Não satisfeitos, os agentes, que deveriam defender a vida, lançaram, dentro do carro, uma bomba de gás lacrimogêneo, que, mesmo considerada uma arma não letal, é altamente tóxica. Genivaldo foi morto dentro de uma “câmara de gás”.

Esquizofrênico, Genivaldo levava no bolso as medicações das quais fazia uso e a receita médica. Mesmo mostrando os remédios, foi ignorado pelos policiais, que o torturaram com requintes de crueldade para que todo o país pudesse ver. Um ato de violência inaceitável, que só reforça o despropósito com que os agentes da lei tratam negros e pobres em suas abordagens. Não há o menor respeito por essas pessoas, sempre vistas como bandidas. Genivaldo, infelizmente, foi só mais uma vítima do descaso e do preconceito que impregnam as forças policiais. Está claro que os cinco agentes rodoviários federais — Clenilson José dos Santos, Paulo Rodolpho Lima Nascimento, Adeilton dos Santos Nunes, William De Barros Noia e Kleber Nascimento Freitas — cometeram homicídio qualificado e tortura. Apesar de se sentirem protegidos pelas fardas, não podem ficar impunes.

O cronista Severino Francisco traduziu muito bem o espírito dos nossos tempos sombrios: “Existe uma escalada nesses ataques em razão da leniência, da complacência e da omissão das instituições responsáveis por zelar pela democracia. Elas têm falhado clamorosamente. Como diz o padre Vieira, a omissão é o pecado que se faz não se fazendo. E foi isso que abriu a porteira para o nazismo jeca, cópia grotesca do pensamento mais abominável da humanidade” (Correio Braziliense, 19/01/2020).

 

 

Por Marcos Fabrício Lopes da Silva*

* Professor nas Faculdades Promove de Sete Lagoas (2005-2009), Fortium (2013) e JK (2013-2020). Jornalista, formado pelo UniCEUB. Poeta. Doutor e mestre em Estudos Literários pela UFMG.

 

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