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O CRESCENTE DESENCANTO

O CRESCENTE DESENCANTO

Apressado come cru. O mesmo, por Horácio (65 a.C.–8 a.C.), foi dito: “Esforço-me para ser breve e fico obscuro!” (Arte Poética, 18 a.C.). O mundo não é só um mundo de coisas em movimento, mas também um mundo de acontecimentos e sua trama. Introduzimos maior autonomia nas escolhas e, assim, mais perguntas sobre sentido e liberdade. Lidam com isso a vida como tragédia e a vida como drama. Os gregos criaram a noção de livre-arbítrio e, ao mesmo tempo, inventaram na tragédia um Édipo que tenta, o tempo todo, evitar o oráculo e não consegue. A profecia é clara: Édipo vai matar o pai e se casar com a mãe. Ele passa toda a tragédia tentando evitar isso.

Horácio (65 a.C.–8 a.C.)

 

Ignorando que o rei era, na verdade, Laio, seu pai biológico, Édipo o mata. Mais tarde, assume o trono de Tebas e se casa com Jocasta, sem saber que ela era sua mãe. A cidade, então, é assolada por uma peste que só teria fim se o assassino de Laio fosse encontrado. Édipo sai em busca de respostas e acaba descobrindo que o culpado era ele mesmo. Com isso, Jocasta se suicida e Édipo se pune furando os próprios olhos. O “crescente desencanto” – considerando o desenrolar da história de Édipo – apresenta-se por meio dos enormes triunfos de um progresso material, apoiado nas novas tecnologias, que não cessaram a concentração de renda, a exclusão social, a destruição ambiental e a precarização das relações humanas.

As raízes desse grande impasse estão bem explicadas no livro As razões do Iluminismo (1999), escrito pelo diplomata Sérgio Paulo Rouanet, conforme ilustra a seguinte passagem: “Há uma consciência de que a economia e a sociedade são regidas por novos imperativos, por uma tecnociência computadorizada que invade nosso espaço pessoal e substitui o livro pelo micro, e ninguém sabe ao certo se tudo isso anuncia uma nova Idade Média ou uma Renascença. Há uma consciência de ruptura” (As razões do Iluminismo, 1999). A busca obsessiva pelo progresso causou a desvalorização da cautela e da prudência. Desprezando o valor da contemplação, caímos no conto de que “tempo é dinheiro”. A prepotência embalada por um mercado novidadeiro ofuscou o matutar filosófico com a luz do holofote publicitário. Fez-se correr o apelo banal da “pós-modernidade”. Porém, quando recorremos à arte de vanguarda e aos avisos que ela fornece sobre os buracos da indústria cultural, vem a voz de Chico Buarque, sublinhando o tempo da delicadeza: “Não se afobe, não/Que nada é pra já/O amor não tem pressa/Ele pode esperar em silêncio/Num fundo de armário/Na posta-restante/Milênios, milênios/No ar” (Futuros Amantes, 1993).

 

Perigosamente confundidos, apreciar e devorar nos fazem perder a linha entre a fome e a gula. Devagar, apuramos o paladar e degustamos melhor a vida. Para o sujeito concreto, sua emancipação é tomada em relação a tudo aquilo que o impede de se governar a si mesmo. Por sua vez, uma ciência que não encontrou sua legitimidade não é uma ciência verdadeira; ela cai ao nível da ideologia ou de instrumento de poder, se o discurso que deveria legitimá-la aparece ele mesmo como dependente de um saber pré-científico, da mesma categoria que um relato “vulgar”.

Chamo de relato “vulgar” o pior inimigo das reticências e o melhor amigo do ponto final. Refiro-me também ao perigo das sentenças definitivas que sacrificam interrogações para referendar convicções. Gilberto Dupas (1943-2009) chama a atenção para o desprezo sofrido há tempos pela filosofia, favorecendo o sucesso das ciências de mercado como leitoras hegemônicas da realidade: “No mundo pós-moderno, as técnicas obedecem ao princípio de otimização das performances: aumento do output (informações ou modificações obtidas); diminuição do input (energia despendida) para obtê-las. O objetivo não é o verdadeiro, ou o justo, ou o belo, mas simplesmente o mais eficiente. A administração da prova passa assim a ser controlada por um outro jogo de linguagem no qual o que está em questão não é a verdade, mas o desempenho, ou seja a melhor relação input/output” (Ética e Poder na Sociedade da Informação, 2000).

 

Tudo isso ajuda a explicar porque o pragmatismo vem detonando a utopia como modelo político dominante. A respeito, Dupas melhor adverte: “O Estado e/ou a empresa abandonam o relato de legitimação idealista ou humanista para justificar a nova disputa no único discurso aceito pelos financiadores do mundo pós-moderno: a busca do lucro e do poder. Não se investe em cientistas, técnicos e equipamentos para saber a verdade, mas para aumentar o poder”. Por isso, o “crescente desencanto” ocorre porque não deveríamos ser tão metidos a “entendidos”, como diria Nelson Rodrigues (1912-1980), achando que tudo o que acontece é programado, calculado, nem ficar deslumbrado com a relatividade das coisas, os imprevistos e as soluções individuais.

Reconheço que há certa doçura no canto dos Titãs: “O acaso vai me proteger/Enquanto eu andar distraído” (Epitáfio, 2002). Convém assim enxergar e valorizar o lado das incertezas. Porém, estão faltando talento e sobrando mediocridade em viver a vida tal como ela se apresenta. À luz de Tostão, tomo emprestado seu precioso comentário que, a meu ver, ultrapassa o mundo da bola e ilumina a bola do mundo: “Talento não é sinônimo de habilidade, de técnica ou de criatividade, como insistem em dizer. É a síntese de tudo isso mais a lucidez para tomar as decisões e as boas condições físicas e emocionais” (Folha de S. Paulo, 9/4/2022).

 

 

Marcos Fabrício Lopes da Silva*

* Professor nas Faculdades Promove de Sete Lagoas (2005-2009), Fortium (2013) e JK (2013-2020). Jornalista, formado pelo UniCEUB. Poeta. Doutor e mestre em Estudos Literários pela UFMG.

 

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