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Pós-modernidade: a importância da filosofia e o elogio a solidão

Pós-modernidade: a importância da filosofia e o elogio a solidão

A chamada “pós-modernidade” que aglomera vários fenômenos da história humana, como a explosão demográfica, o excesso de informação, cobrança de adequação à padrões, vida virtual, ansiedade, fobias, stress, depressão  e outros, vem sendo questionada impertinentemente através de muitos escritos. Entre eles, uma  provocação singular, sem dúvida, é a respeito da solidão.

A solidão é saudável? É possível viver na solidão? Por que as pessoas temem a solidão? Como a Filosofia pode nos ajudar a entender a importância da solidão?

Boécio (480-524 d.C) foi um pensador romano que teve profunda influência na Filosofia Medieval. Boécio ocupava um cargo de prestígio no Senado Romano, acusado de traição ao rei, foi preso, torturado e executado. Na prisão, enquanto aguardava sua execução, escreveu De Consolatione Philosophiae (A Consolação da Filosofia) nessa obra o autor imagina está dialogando com a própria Filosofia, uma Deusa que veio lhe visitar no pior momento de sua vida. Isolado na prisão, sozinho, Boécio é consolado pela Deusa que percorre junto a ele um caminho para a verdadeira felicidade.

Boécio

 

Diferente à situação de Boécio, o filósofo Sêneca (4 a.C-65 d.C) teve uma vida bem sucedida, depois de exilado retornou a Roma como preceptor de Nero e se destacou especialmente no que tange ao Direito Romano. Diferente de Boécio que não escolheu a solidão, mas aprendeu a conviver com ela, Sêneca percebeu que a solidão era  remédio para a alma. Dedicado à filosofia epicurista e estóica, Sêneca elevou a condição da imperturbabilidade da alma se medicando da própria solidão.

“Eu me afastei não apenas dos homens, mas também das coisas, e em primeiro lugar das minhas: ajo no interesse da posteridade. Escrevo para transmitir advertências salutares, por exemplo, receitas de medicamentos úteis, que experimentei como eficazes em minhas próprias feridas, as quais, se não se curaram completamente, ao menos não se alastraram mais. (Aprendendo a viver: Da solidão dos filósofos. Pág. 17)”

Sêneca

Não somente  pensadores ocidentais consideram a importância da solidão, mestres zen valorizavam e valorizam o encontro consigo mesmo,  uma possibilidade de transcender as angústias da vida, portanto, não pretendiam ensinar coisa alguma na forma como entendemos na educação ocidental. O que desejavam era levar seus discípulos a “desaprender” o que sabiam, a ficar livres de qualquer filosofia. Talvez precisemos também desaprender e permitir despertar a lucidez na solidão. Deixar nossas “supostas verdades” para trás e construir novos caminhos.

Martin Heidegger (1889-1976), filósofo alemão afirma em Ser e Tempo que estar só é a condição original de todo ser humano. Todos somos jogados no mundo, o “Dasein”, termo usado pelo filósofo para descrever a continuidade como ser-no-mundo . Que cada um de nós é só no mundo. É como se o nascimento fosse uma espécie de lançamento da pessoa à sua própria sorte. Podemos nos conformar com isso ou não. Mas nos distinguimos uns dos outros pela maneira como lidamos com a solidão e com o sentimento de liberdade ou de abandono que dela decorre, dependendo do modo  como interpretamos a origem de nossa existência. O ser humano se torna autêntico quando aceita a solidão como o preço da sua própria liberdade. E se torna inautêntico quando interpreta a solidão como abandono, como uma espécie de desconsideração de Deus ou da vida em relação a ele. Com isso abre mão de sua própria existência, tornando-se um estranho para si mesmo, colocando-se a serviço dos outros e diluindo-se no impessoal. Permanece na vida sendo um coadjuvante em sua própria história.”

Martin Heidegger

O ser autêntico é aquele que responde pela sua vida, o ator principal, o arquiteto de sua própria obra-prima, de sua vida, aquele que está disposto a sempre erguer projetos existenciais, ou seja, sempre se projetando para possibilidades de ser.

Outro alemão amante da solidão foi Friedrich Wilhelm Nietzsche (1884-1900) que deixa claro em seus escritos o valor e o amor pela solidão. Nietzsche valoriza a arte de estar só, afastado das moralidades medíocres da massa social, distante dos burburios inadequados de uma burguesia decadente de sua época. Amante do espírito livre encontrava na solidão a sua melhor companhia.

“Estando entre muitos, vivo como muitos e não penso como eu; após algum tempo, é como se me quisessem banir de mim mesmo e roubar-me a alma — e aborreço-me com todos e receio a todos. Então o deserto me é necessário, para ficar novamente bom” (Nietzsche, Aurora, § 491)

“Perspectivas distantes.

— A: Mas por que essa solidão?

— B: Não estou aborrecido com ninguém. Mas sozinho pareço ver os amigos de modo mais nítido e belo do que quando estou com eles; e quando amei e senti mais a música, vivia longe dela. Parece que necessito de perspectivas distantes para pensar bem das coisas.”

(Nietzsche, Aurora, § 485)

Friedrich Wilhelm Nietzsche (1884-1900)

Percebe-se que na História da Filosofia encontramos inúmeros pensadores que na solidão encontram o autoconhecimento, a educação interna dos seus afetos e  alta valorização da Vida.

Com o processo de vacinação, muitos anseiam pela aglomeração, pela possibilidade de frequentar novamente Igrejas, shoppings e outros meios de entretenimento na busca  do que eles entendem como felicidade e outras formas de realização. Contudo, devemos nos voltar para nós mesmos e nos questionar se esses dias de isolamento nos educaram para compreensão da cidadania, o valor da pessoa humana entre outros fatores de suma importância para o convívio social, ou  se simplesmente foram dias de angústia e medo sem crescimento algum.

Uma coisa é certa, não tema a solidão, compreendenda-a, ela poderá ser a companhia que irá possibilitar novamente o desejo de viver.

Diante da “pós-modernidade”, a filosofia colabora e muito para a elevação espiritual e o amadurecimento existencial. Menos antidepressivos e mais filosofia.

 

Referências:

NIETZSCHE. Friedrich. Aurora. Trad. Antonio Carlos Braga. Ed. Escala. São Paulo, sd.

SÊNECA. Lucio Anneo. aprendendo a viver: Trad. Lúcia Sá Rebello. porto Alegre. L&PM, 2019

 

Por Neimar Oliveira

Para conferir outras matérias de Neimar Oliveira, acesse o link abaixo:
https://libertasnews.com.br/category/colunas/vida-e-filosofia-neimar-oliveira/

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