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PRECISAMOS ESQUECER O BRASIL!

O caráter político do nacionalismo, da nação e da identidade nacional é apontado, primordialmente, em conjunto com a ascensão do Estado-moderno, mas também com diferentes buscas por autonomia, autodeterminação e soberania popular. Do ponto de vista sociológico, encontramos afirmações sobre seu papel na transição de sociedades feudais ao capitalismo, assim como sobre sua crescente irrelevância num mundo globalizado, de identidades líquidas. De uma perspectiva antropológica, vemos a busca de suas bases identitárias e relacionais primárias. Economicamente, temos a importância do estabelecimento de unidades nacionais para o desenvolvimento do mercado, seja livre ou planificado. Do ponto de vista psicológico, trabalha-se a necessidade ou não do pertencimento nacional à autorrealização do indivíduo. Os estudos sobre o nacionalismo, assim, abrangem diversas disciplinas e, dentro delas, uma miríade de possíveis interpretações.

 

A identidade nacional seria um tipo específico de identidade coletiva, uma consciência de pertencimento a um grupo – à nação. Nesse sentido, pressupõe laços emocionais, de solidariedade, que enquadram as relações sociais básicas do ser humano. Naturalmente, não é a única forma identitária de seus integrantes, mas supõe ser a mais abrangente e fundamental, atravessando divisões de classe, status, gênero, torcidas de futebol etc. O nacionalismo, por sua vez, seria a defesa mais ou menos ativa da nação e de seus elementos identitários constitutivos. Isto é, a ideologia que procura defender, garantir e propagar os interesses da própria nação dentro e fora da sociedade que a compõe. Por fim, a nação seria um grupo humano que encarna as identidades e projetos políticos de seus membros. Um princípio organizador, fenômeno emergente, que articula as bases identitárias com as perspectivas ideológicas. Esse grupo deve, necessariamente, abranger a totalidade da população, não apenas tais ou quais grupos ou elites de dado contexto.

 

As identidades nacionais são ritualizadas; necessitam de liturgias que as representem em forma de bandeiras, hinos, homenagens ao passado. Construir tais identidades equivale a construir uma imagem da nação na qual esta se reflita de forma consensual, com a negação de tal consenso passando a ser vista como uma traição ou, no mínimo, como um desrespeito às tradições, às liturgias, aos pais fundadores, aos valores: aos símbolos identitários, enfim. Por outro lado, se a identidade nacional toma a tradição como fundamento, toda tradição é uma escolha feita a partir de um repertório histórico. Determinados acontecimentos, locais e personalidades são selecionados e transfigurados de forma a enquadrarem-se em um corpo de tradições que recolhe o passado e o guarda, mas não de forma aleatória, nem inocente, nem totalizante.

 

A modernidade também gera e nasce de uma tradição, formando um sistema que deriva da inovação e da pluralidade, podendo criar, por outro lado, um processo de centralização ideológica e de, ao mesmo tempo, integração de diferenças periféricas e de busca da uniformidade efetuada a partir da perseguição à diferenças eleitas como tal. O que define a modernidade é seu caráter aberto e vinculado a uma permanente transformação. Segundo o historiador José Carlos Reis, “o presente perde o direito de existir enquanto presente. Ele está dominado pela idéia de revolução permanente, isto é, de ruptura com o passado e consigo mesmo, como realização da utopia. A modernidade se quis uma liberação de toda referência ao passado” (História & teoria: historicismo, modernidade, temporalidade e verdade, 2003).

 

Cria-se, a partir daí, um processo de crítica permanente às tradições e um acelerado processo de renovação cultural que coloca a existência e os valores que a fundamentam cada vez mais sob o signo do efêmero, do inseguro, do provisório. Onde o novo é ao mesmo tempo reverenciado e temido, o passado torna-se algo a ser igualmente superado como a antítese do novo e reverenciado como a segurança que ficou para trás, o que gera uma nostalgia permanentemente renovada: um cansaço de ser moderno e uma vontade de ser eterno, diria Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), em “Eterno” (Fazendeiro do ar, 1954). “O que se desatou num só momento não cabe no infinito, e é fuga e vento”, ressaltou o poeta mineiro, em “Instante” (A vida passada a limpo, 1959).

 

Drummond soube questionar a imagem de um país totêmico, a positividade do modo de ser brasileiro sem constatação da barbárie do processo colonizador ou da gravidade do conflito de classes: “Precisamos, precisamos esquecer o Brasil!/Tão majestoso, tão sem limites, tão despropositado,/Ele quer repousar de nossos terríveis carinhos./O Brasil não nos quer! Está farto de nós!/Nosso Brasil é no outro mundo. Este não é o Brasil./Nenhum Brasil existe. E acaso existirão os brasileiros?” (“Hino Nacional”, Brejo das almas, 1934). Assim, Brasil, ou nação, e brasileiros são abstrações que camuflam conflitos reais. É como se lêssemos o desfazimento do processo edificante, demolição que parece sussurrar “é preciso criticar o (ou o que se fez do) Brasil”.

 

Em entrevista concedida a Gilberto Mansur, em maio de 1984, Drummond constata a difícil realidade do Brasil à época e é possível perceber as tristes semelhanças com os nossos dias. “As contradições do capitalismo são de tal natureza que, creia, cada vez mais se acentua isto: um grupo muito pequeno de privilegiados e uma massa enorme de desgraçados e abandonados que não têm condições de viver. Então, a tecnologia não serviu ao país, ou não serviu ao mundo, para melhorar a sorte do homem. Pelo contrário, a tecnologia separou mais, porque há pessoas que dispõem de recursos para gozar de todos os benefícios da tecnologia e há aqueles que estão cada vez mais desamparados”.

 

Marcos Fabrício Lopes da Silva*

* Professor da Faculdade JK, no Distrito Federal. Jornalista, formado pelo UniCEUB. Poeta. Doutor e mestre em Estudos Literários pela UFMG.

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