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Thelema: A Fonte na qual Raul Seixas se Banhou

Thelema: A Fonte na qual Raul Seixas se Banhou

 

Em meio a tantas tristezas dos últimos meses, desde que ouvimos falar sobre a Pandemia de Covid-19, no início de 2020, até agora quando chegamos a marca de 412 mil mortos, temos esquecido que um dia (ou, uma época) os cantores, bandas, poetas – artistas em geral, das várias artes, falavam sobre a necessidade, e a espera por uma evolução (e, aqui, se faz a distinção de ‘revolução’) das relações do consigo mesmo, com o seu próximo, e com toda a sociedade.

Ao nível de Brasil, teve um cantor que de tão envolvido com as suas convicções filosóficas, e artísticas, se tornou um ícone de um tipo de “engajamento”, que foge em muito de qualquer outro tipo de ativismo, já que esse “engajamento” vinha de dentro, de sua busca por sigo mesmo – e, depois, de sua “ânsia” por manifestar esse “Novo Mundo” que ele estava vislumbrando, mesmo que ainda distante.

Existem duas músicas que mais exprimem essa “utopia”, do Maluco Beleza – e, digo “utopia” não porquê não seja praticável individualmente, mas devido a complexidade de quaisquer “Projetos de Mundos” se estenderem para todas as culturas, e sociedades existentes; e, essas músicas são ‘A Lei’, e ‘Sociedade Alternativa’.

 

Em Ambas as Músicas podemos encontrar as seguintes expressões/palavras-chaves:

  • Lei
  • Sociedade Alternativa.
  • Faz o que tu queres há de ser tudo da lei.
  • Novo Aeon.
  • Número 666 chama-se Aleister Crowley.
  • A lei do forte.
  • Essa é a nossa lei e a alegria do mundo.

Bom, em 1904, enquanto visitava o Cairo, no Egito, com a sua esposa ‘Rose Kelly’, Aleister Crowley (poeta inglês, e bom amigo de Fernando Pessoa), por meio de uma epifania (ou, êxtase místico), e com o importante suporte psíquico de sua esposa, escreveu os 3 capítulos de um livro, que seria a base da filosofia/religião chamada de ‘Thelema’.

Aleister Crowley

Segundo o próprio Aleister Crowley, a escrita do livro recebido no Cairo (Liber Al vel Legis – o Livro da Lei), em 1904, no qual está manifestado as bases espirituais, e comportamentais que fundamentam a  filosofia/religião – chamada Thelema – inaugurara uma nova era, um Novo Aeon para a humanidade.

O termo grego ‘Thelema’, por sua vez, é traduzido como ‘vontade’, sendo que não estamos falando de qualquer ‘vontade’, tal como se aproxima, e até se confunde com ‘desejo’, mas sim de uma ‘vontade’ essencial, ligada tanto à atual existência do indivíduo, quanto a ‘natureza’ de cada indivíduo.

Exemplo: um líquido X deve ser colocado em um recipiente feito para receber o mesmo (líquido X), pois se você colocar chumbo derretido em um recipiente de plástico, o mesmo será, instantaneamente, destruído. Do mesmo modo, se torna um tanto quanto desperdício usar uma vasilha de chumbo só para guardar água pura.

Basicamente, estamos falando de uma Vontade (missão / conteúdo) que precisa de certas qualidades (natureza / recipiente) para ser colocada em prática, ou melhor, para ser efetivada, ou, manifesta. Trata-se, então, de uma vontade que justifica uma existência, e de uma existência que só consegue ser integral, ou, satisfatória, na medida que faz valer as suas qualidades (características).

Voltando às expressões/palavras-chaves, temos:

Lei – 

No caso da física, as ‘leis’ são “regras da natureza” que determinam, ou, que descrevem (melhor dizendo) o comportamento da natureza, quando submetida a certas situações. Assim sendo, uma determinada ‘lei’ não influencia na natureza (ou, não “diz” como a natureza deve se portar, é claro), mas sim descreve o que acontece com ela.

Para descrever determinado comportamento da natureza, uma ‘lei’ é apresentada como um ‘Enunciado’, e uma fórmula é criada, de maneira que esse ‘Enunciado’ seja resumido em letras, e/ou símbolos, e/ou números, e/ou sinais – por exemplo.

No contexto das letras do Raul – essa ‘Lei’, que ele cita – trata-se da descrição do comportamento da natureza, quando submetida a uma nova configuração de forças, sendo que essas se reconfiguraram devido a um novo posicionamento do Sol em relação ao Zodíaco. Esse novo posicionamento zodiacal inaugurara, em 1904, a Nova Era de Aquários, ou, como chamado nas músicas do Raul – o Novo Aeon.

Essas reconfigurações acabam por interferir não só na “natureza inconsciente” (digamos assim), mas também nos seres “vivos conscientes”, modificando o modo que esses vêem o mundo, a própria natureza, e a existência.

Durante os últimos 2 mil anos (mais ou menos), em que a humanidade esteve influenciada pela Constelação de Peixes, a Morte era um fator de terror para a humanidade, uma vez que estes viam no movimento aparente do Sol, como a evidência de que o Deus Sol (Rá para os egípcios) nascia, se posicionava no apogeu, e morria – entrando para um lugar tenebroso, do qual só saia no amanhecer.

Deus Rá

Essa visão fazia com que os antigos acreditassem que os seres humanos (assim como Deus) nasciam, alcançavam o vigor, e entravam para os lugares terríveis do ‘Além Túmulo’, onde enfrentariam tenebrosas criaturas, nos lugares mais horripilantes que se possa imaginar – com isso, as religiões vindouras passaram a formular em suas doutrinas, e teogonias a ideia da necessidade imperativa de um Nascimento, uma Morte, e uma Ressurreição, e tudo isso baseado na observação celeste.

Essa forma de ver a espiritualidade, como um drama de Nascimento, Morte, e Ressurreição influenciou na formulação dos Deuses de inúmeras religiões, os quais Nasciam de uma Mulher Virgem (que pode ser a Terra, e/ou os Céus), Morriam (para uma suposta restauração), e Ressuscitavam poderosos, e sem máculas.

Centenas de anos depois, mesmo com a troca da Visão Geocêntrica, pela Visão Heliocêntrica, as religiões, ainda, existiam amparadas (ou, baseadas) no Geocentrismo. Em 1904, porém, nasce uma religião vibrando na constatação científica de que o Sol não se movimenta, ou melhor, que não Nasce, nem Morre, e tão pouco Ressuscita, mas sempre esteve, e estará no mesmo lugar, reinando ao Meio-Dia, e á Meia-Noite: ‘Thelema’ (Vontade, em grego).

E o que quer dizer, em termos espirituais-filosóficos que Thelema vibra numa visão Heliocêntrica? Quer dizer várias coisas, entre elas:

  • Assim como o Sol, o Ser Humano não baixa no horizonte, e nem levanta do mesmo; e nem entra para a danação, e nem sobe para um céu prometido.
  • É a nossa limitada visão que dá a impressão (falsa) de que existe uma Penumbra a entrar, e uma Aurora a nascer; é a variação, e instabilidade de nosso ponto-de-vista, que nos faz acreditar num sofrimento eterno, ou mesmo uma alegria eterna.
  • Existe, sim, o sofrimento, mas existe o deleite (o prazer); existe – sim – o Ardor (como o Sol), e Felicidade Eterna em saber que essas variações são ilusórias, e que o seu movimento é como um Balanço de uma Criança, quando lançamos um Olhar de um Deus, de um Sol, e não o olhar de um Planeta.
  • Todo Homem, e toda Mulher é um Sol, fumegante, eternamente, em seu Centro, como um Rei, um Deus; por tanto, ‘não existe Deus além do homem’, uma vez que ele não tem que procurar o que já está dentro de si (seja lá o que signifique ser esse Deus).

Podemos dizer, então, que Thelema (Vontade) é a Palavra que sintetiza o Enunciado da Lei: “Faze o que tu queres, há de ser o todo da lei.” Segundo essa filosofia/religião, ao invés de passar a vida correndo em busca de um Deus externo, o indivíduo deve buscar a sua Divindade Interna, que não é nada mais, nada menos, que a própria Essência dele mesmo, a qual justifica a sua Existência por meio de sua Vontade, mas não qualquer vontade, mas a sua Verdadeira Vontade – a sua Missão.

E essa é a Lei da qual Raul falava: a Lei do ‘faze o que tu queres’.

 

Por J. Kudram

 

Acesse o link abaixo e ouça músicas de Raul Seixas:

https://www.youtube.com/watch?v=6WC3a7KyWa4

 

Conheça e leia outros artigos de J.Kudram. Acesse o link abaixo:

https://libertasnews.com.br/category/o-diario-magico-de-kudram/

 

1 Comment

  1. Andreia disse:

    Excelente matéria sobre Raul Seixas , parabéns Jackson pela escolha deste grande cantor e compositor , um menestrel do nosso tempo .Riquíssimo texto que aborda as várias facetas deste grande músico .

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